sábado, 27 de maio de 2023

Bolsonaro e Collor: duas faces da política da crise

1 Contexto político da campanha 

Em 1989, o Brasil viveu um ano de grande esperança política com a abertura efetiva do processo democrático. Acontecia naquele momento a primeira eleição direta desde 1960, com eleição de Jânio Quadros, e após um período de 22 anos de ditadura civil-militar no país. Era tão grande a efervescência política a qual vivia o Brasil que, para concorrer à presidência, havia vinte e seis candidatos na disputa. Segundo as pesquisas, dois candidatos disputam a preferência do eleitorado: Fernando Collor de Melos e Luiz Inácio Lula da Silva. O primeiro lugar, segundo o Datafolha, estava o liberal Fernando Collor, apresentava-se como arauto da moral e único candidato capacitado para destravar a economia, controlar a inflação e alinhar o país à modernidade da administração pública. Apresentava-se - como ele mesmo se autodenominava -, o Caçador de Marajás - quando era governador de Alagoas - , e representante da nova forma de fazer política. 
Interessante notar que, não obstante o candidato se apresentar como novo na política, gestor e não político, sua família era formada de figuras tradicionais da política brasileira: seu avô foi assessor de Vargas e deputado federal; seu pai governador, senador, e o próprio Collor tinha sido deputado federal, governador de Alagoas e prefeito de Maceió, sendo portanto, nomeado ainda da Ditadura. Sua família liderava grupos empresariais, os quais detinham o oligopólio da imprensa alagoana. 
Lula da Silva, retirante nordestino em 1956, era então deputado federal por São Paulo, político ligado a movimentos sociais e sindicalista dos funcionários da metalúrgica do ABC paulista. Político conhecido por lutar contra a ditadura militar, líder partidário e fundador do Partido dos Trabalhadores (PT) no ano de 1980. Defendia que o governo brasileiro fosse gestado por ideais socialistas, no qual o Estado dividisse melhor as riquezas do país entre as classes trabalhadoras e buscasse, com isso, justiça social a milhões de brasileiros das diversas camadas sociais. 

 1.1 Collor verus Bolsonaro 

Embora diste de quase trinta anos de diferença, suas campanhas conservam mais semelhança do certamente muita gente pensa. Pois bem: os dois se apresentavam como únicos a congregar esforços para mudar o país para melhor e se apresentaram como antissistema e combatentes ferrenhos da corrupção. Da mesma forma, seriam conservadores na religião, na família tradicional e anticomunistas; defendiam o modelo neoliberal como sendo o melhor a ser seguido, o encurtamento do Estado e foco no capital estrangeiro. Eram Patriotas os quais buscavam nos símbolos da bandeira o ideal de conservador-cidadão. Collor usa o verde-amarelo para pintar o rosto simbolizando o patriotismo; Bolsonaro, igualmente, o fez com as cores da bandeira. Não obstante, sendo pessoas já conhecidas no cenário político nacional, apresentavam-se como antisistema e outsiders. Como já citado, Collor era pessoa com experiência no parlamento nacional, no executivo estadual e municipal, e Bolsonaro foi deputado federal pelo Rio de Janeiro há mais de 28 anos. 
Na disputa com o mesmo adversário Lula, apregoavam que tal candidato era comunista e sua política antiquada levaria o país à bancarrota. Nos dois casos, diziam que Lula instalaria o comunismo no Brasil, apropriar-se-ia das propriedades privadas, bem como sequestro da poupança de brasileiros. 
É fato que, tanto Collor em 1989, e Bolsonaro em 2018, caíram no gosto da elite. Rapidamente foram eleitos como candidatos preferidos dela e de grandes empresários de diversos setores da economia. Da mesma forma, foram os dois candidatos a angariar apoio dos grandes veículos de comunicação do país, principalmente as emissoras de televisão, a exemplo da Globo, a qual deu apoio direto à Collor e indireto à Bolsonaro. No campo do discurso político, é muito fácil dizer que Bolsonaro é uma cópia ruim de Collor. O primeiro, fala com muita dificuldade em articular ideias e muito limitado no vocabulário. Collor, economista por formação e, por atividade em grupo de imprensa, dominava muito melhor o discurso político e conseguia se sair facilmente em discursos mais improvisados e ou quando afrontado discursivamente. 
Por outro lado, o que temos de novo na campanha de Bolsonaro é a Internet, que de certa forma, era suprido à época de Collor pela televisão como veículo de massa. Dentro deste mesmo contexto de internet, a web.3 traz consigo uma grande possibilidade de interatividade proporcionado pelas redes sociais: whatsapp, instagram, youtube, twitter, facebook etc. É justamente neste meio que Bolsonaro mais se destaca de Collor e de seu adversário Lula em 2018. Nestes espaços, as chamadas fake news - que sempre estiveram presentes no campo político - , transformam-se em ferramenta política de ataques ao adversário e criam situação paralela à própria realidade factível. Antes, porém, o que mais aproximava ambos os candidatos, inexoravelmente, era o projeto político de satisfazer os desejos da elite econômica. 
Via de regra, é a elite que escolhe os candidatos.Também é importante salientar que tais crises quase sempre são geradas pela própria elite, com suas decisões políticas, e sendo ela também, "responsável" indicar pessoas para resolvê-las. Neste sentido, o político responsável por angariar competência redentoristas, seja em carisma personalístico, seja religioso, ou atributos políticos, são os indicados. Max Weber em seu livro sobre Ciência e Política, diz que tanto as massas quanto a pequena elite têm os olhos voltados para os homens importantes cujos nomes lhe são familiares. Por outro lado, desconfiam da ambição de um desconhecido, ao qual só lhe dá confiança depois de haver triunfado definitivamente. Isso é recorrente em toda a história política da humanidade, independente do regime que a governe. Aconteceu no período napoleônico quando da crise da França, o qual, em novembro de 1799, ocorreu o Golpe de 18 de Brumário. " e, depois disso, Napoleão, começou a promover reformas na economia, no sistema de justiça, na educação, no governo, entre outras áreas de grande importância para o país.". Nos mesmos contextos da crise, na Itália fascista com Mussolini; na Alemanha com Hitler e tantos outros. 
 
2.Conclusão 

Após exposição dos argumentos listados, inferimos que em momentos de crises é bem comum aparecer políticos advogando competência para resolver todos os problemas enfrentados em períodos de crise política. Normalmente, criam casos de sociais no sentido de estabelecer um diálogo, uma saída para os momentos de agitação e convulsão social. No caso de Collor, o político ficou conhecido e estabeleceu diálogo forte com a questão do Caçador de Marajás, ou seja, o homem responsável por equilibrar as contas públicas e realocar os recursos aos mais pobres. Bolsonaro, como homem cujo maior princípio era a honestidade, a pátria, a família tradicional e a religião, elementos base e diametralmente oposto ao sentimento antipetista criado pela imprensa e jurisdicionado na figura da Operação Lava-jato. O Salvador da Pátria, a despeito do interesse da classe de trabalhadores, surge com trato discursivo no sentido de falar às massas, mas com objetivo de interesse na classe de poder econômico. 
Há muito tempo, as pesquisas políticas mostram que o fator econômico numa eleição sempre tem maior peso na hora de decidir o voto. Desta forma, tais candidatos são criteriosos na hora de programar os discursos políticos. Weber no mesmo livro supracitado, publicado há mais cem anos, relata com muita temporaneidade que o povo elege o fator econômico em primeiro lugar, seguido do conservadorismo (família, religião, tradição) e por fim, opiniões tradicionais recebidas dos familiares. 
Críticas à parte, é fato que os quatorze anos de governo de esquerda no Brasil foi marcado por grande desenvolvimento entre as classes tradicionalmente desprestigiadas, pelo grande investimento educacional, na construção civil, no funcionalismo público que viveu seu apogeu, investimento em grande escala na linha de crédito, na aquisição de bens duráveis, na ampliação de direitos sociais etc. Isso teve um efeito diretamente negativo nos planos da elite, no status quo, no establishment. Portanto, a ordem ideológica, econômica, política e legal que constitui a sociedade dominante, tinha que voltar ao plano do conservadorismo social. 
Para fazer levante a este processo estatisticamente improvável, foi necessário um impeachment, cujo fato jurídico era uma espécie de empréstimo bancário nas contas da União que, depois, a própria CGU negou haver irregularidades na aprovação das contas da presidência da República. Ato contínuo, foi ainda necessária a Operação Lava-jato, no sentido de "banir a corrupção nos governos petistas", da qual resultou na prisão por quase dois anos do então ex-presidente Lula, que depois o STF anulou por diversos vícios nos processos e parcialidade do juiz Sérgio Moro. 
Nos casos acima, a subsunção do Direito, isto é, o que seria a aplicabilidade do direito, das normas em caso concreto, deixa claro qual fator valorativo as instituições do poder judiciário têm, quando das decisões judiciais entre as classes de poder. Segundo o professor de Filosofia do Direito, Alysson Mascaro, nada do direito é olhar a norma tal, e portanto, aplicar a subsunção àquela norma. O Direito não funciona assim, pois quem pensa assim estaria no mundo da fantasia. A decisão do jurista está sempre ligada a fatores políticos, da dinâmica das relações sociais, das dominações e pressões ideológicas.Todo poder é poder político, inclusive o poder judiciário. 

Por Manoel Seraim 
Filósofo 
Cientista político

quinta-feira, 20 de abril de 2023

O capital pós-moderno

O mundo tá meio louco, Tudo muito apressado, A vida muda tão rápida, Que de multicobranças e tarefas, O homem ficou meio abobado; De tanta velocidade, é certo que causado, Tanta loucura que vemos, E até em nossas escolas esses loucos têm chegado; Isso mesmo começou com a tal revolução, Da ciência, dos ingleses, Que vem afetando o cérebro, o corpo e o coração, É justamente isso, no capital de hoje, que tudo isso é traduzido em uma autoexplosão. Sendo essas loucuras : (ansiedade, TDAH, intolerância e individualismo extremo), um resumo de uma doença da mente que, como bem diz o filósofo, é a doença neuronal.

segunda-feira, 17 de abril de 2023

Sindicato e a panela de pressão: uma analogia perfeita

Sindicato e a panela de pressão: uma analogia perfeita A criação de sindicato no Brasil está diretamente ligada com ampliação dos partidos políticos e a ampliação da vida política brasileira, principalmente com a criação dos partidos de massa, oriundos das camadas de trabalhadores. Formalmente, foram instituídos no Brasil na era Vargas, com a Lei sindical de 1931 (Decreto 19.770) e, com os vários processos de ruptura democrática, houve a proibição de funcionamento dos sindicatos e partidos de massa, com retorno na década 1980, durante a redemocratização. 
Como entidade política, são um espaço de disputas de interesses materiais e políticos, portanto, atores importantes no cenário econômico e político. Para Antunes (2002), o sindicato é consequência dos conflitos de classes, a partir do esforço da classe operária contra a dominação do capital e a exploração do proletariado. Eles fazem parte da Sociedade Civil Organizada e exercem funções de pressão política para obter seus objetivos. Resumidamente, o Estado se organiza em três segmentos sociais: o primeiro setor (Estado), cujo objetivo maior é o bem comum; o segundo setor (Empresas), cujo objetivo maior é o lucro, e o terceiro setor, (SCO), isto é, ONG, comunidades epistêmicas, sociedades sem fins lucrativos, entidades de classes, sindicatos. A SCO não faz parte da organização interna do Estado, sendo juntamente um contraponto entre este, e as entidades organizadas e os cidadãos. 
Compreendida a organização humana como arena de poder, o Interesse é algo precedente em qualquer ação. Sempre, de alguma forma, estamos pensando em adquirir vantagem: a dissuadir alguém de algo, ou buscar algum benefício. Aristóteles dizia que o homem é um animal político porque ele tem a logos, a palavra, e transfere isso em interesse, numa dialógica-política. 
Os sindicados representam grupos de pessoas que atuam em direção a um objetivo, compartilhando interesse comum. Para alcançar esses objetivos, conforme Pasquino (2010, p. 115), há seis recursos que interferem nas probabilidades de sucesso de uma organização de interesse: número de participantes, recurso financeiro disponível, representatividade, qualidade e amplitude dos conhecimentos utilizáveis, colocação estratégica no processo produtivo e nas atividades sociais essenciais ao funcionamento do sistema político e facilidade de intervenção. Às vezes, nem sempre a força sindical é suficiente para atingir os objetivos, sendo, portanto, necessário grupo de pressão externa. Esses grupos de pressão (partidos políticos, ONG, imprensa, o judiciário, comunidades epistêmicas etc.) atuam, em conjunto com os grupos de interesse (sindicato), na mobilização, na demonstração, na solicitação e intermediação, com foco na conquista dos objetivos. 
Aqui, podemos fazer a analogia entre a panela de pressão e o sindicato. A panela de pressão tem nos seus equipamentos o equilíbrio para melhor rapidez no cozimento dos alimentos, de forma que a válvula controla a temperatura ideal para o bom funcionamento. Caso não haja a pressão necessária, não há o cozimento rápido; caso haja pressão demais, a panela pode explodir ou algo pode mudar os objetivos. Assim, para atingir objetivos, sindicatos devem planejar ações e metas, investir na formação política, atingir a pressão adequada e focar no interesse da coletividade.

sábado, 15 de abril de 2023

Política e internet

A política brasileira sempre foi muito ruim, por conta principalmente do eleitorado que não tem formação política para exercer a cidadania. Neste período, ou seja, antes da grande ascensão das mídias sociais, o fazer político seguia uma linha mais homogênea, em que os partidos tinham a principal função de organizar internamente seus candidatos e definir as pautas da campanha. Com o avanço da internet, criou-se os outsiders, figuras pouco conhecidas e ou inexpressivas que chegam rapidamente ao poder. Em muitos casos, são eleitos através de lacração na internet e de discursos vazios, e frases de efeito. Isso tem trazido maior empobrecimento do debate político, do parlamento brasileiro, tornando a política ainda pior, pois são políticos eleitos pelo fenômeno da internet, sem vivência na vida pública e sem encarar os problemas sociais do país com a profundidade necessária. São figuras criadas através de notícias falsas, as quais constroem uma realidade falseada da verdade, bem como criam um espaço de intolerância na internet e na vida da sociedade. O que já era péssimo, ficou insuportável. A internet, se por um lado, pode trazer boas práticas na vida política de uma nação, por outro, quando usada de maneira inadequada, pode piorar e muito a vida das pessoas. Por ser uma mídia à qual todos têm acesso e podem fazer o que quiser, ela se torna ferramenta perigosa à própria condição humana, seja na propagação de violência física, intolerância religiosa, risco à democracia....pois num só perfil, consegue reunir muito de pensamento totalitário, supremacista, extremista-religiosos etc.

segunda-feira, 27 de março de 2023

A visão ética da Idade Média e Renascimento, em Santo Agostinho e Pico Della Mirandola

A consciência moral proposta pelo filósofo cristão Santo Agostinho - Agostinho de Hipona (354-430 d.C.) - está ligado diretamente à separação do homem pecador de Deus supremo, e essa conexão se fará através da graça divina. Santo Agostinho propõe para sua teoria filosófica uma releitura de Platão, e cria o conceito de livre-arbítrio com três conceitos-chave. O autor estabelece: o Mal físico, por meio de doenças, pragas; o Mal metafísico, cometido por limitações da condição humana, e o Mal moral, fruto do mal de nossas escolhas erradas.

Desta forma, o homem tem consciência sobre seus atos e escolhas, porém essas escolhas devem aproximar o homem de Deus. Portanto, para exercer o bem, o homem tem duas condições: a graças de Deus e o livre-arbítrio. Sem graça não há o bem; sem o livre-arbítrio não seria possível à escolha do bem. Assim, Deus dá à graça e a possibilidade de o homem ser bom, através de ações pautadas na escolha da fé.

Por outro lado, o pensamento filosófico do Renascimento tem estabelecido outros parâmetros éticos e morais do ser humano.  O homem é definido como meio de equilíbrio de todas as coisas. Com essa visão, para o brilhante jovem renascentista Pico Della Mirandola (1463-1494), o homem, na criação divina e sua queda pelo pecado, tem adquirido dignidade através do exercício do livre-arbítrio. Portanto, para esse pensador, deveria ser estabelecida uma nova ordem na fé cristã, a qual deveria dar maior expoente na capacidade intelectualista do homem.  Neste sentido e sem negar a fé, existe maior diferença entre a Ética da Idade Média, na qual o ser ético - este totalmente alinhado ao ser divino, aos dogmas, - com o que é colocado na visão renascentista.  Na visão de Pico Della Mirandola, a liberdade do homem, com o poder de escolha, estabeleceu-se maior independência do homem ao poder religioso.

O tema proposto neste ensaio se encontra diretamente ligado aos preceitos filosóficos e morais da Idade Média (V e XV) e ao período do Renascimento cultural, século XIV e o fim do século XVI. Abordaremos duas charges THAVES, Bob. Frank & Ernest, e Calvin e Haroldo: e foi assim que tudo começou, em que são discutidos: a consciência moral e autonomia para deliberação. Na primeira tirinha em que um interlocutor perguntou ao outro se este segue sua consciência moral, e obtendo como resposta: Não...meu senso moral tem um seletor de chamadas...podemos dizer, dentre outras possibilidades, que a voz da consciência cede lugar às variadas possibilidades de escolhas e liberdades do homem renascentista.

Na segunda tirinha, em que há questionamentos sobre a crença no destino e na predestinação da vida humana, há também uma satirização sobre a condição humana colocar por Deus. Isto é, na visão cristão-medieval o homem teve seu destino já determinado por Deus e só a graças deve mudar isso. Dessa maneira, o cristianismo medieval pressupõe que o erro é parte da natureza humana em decorrência do caráter imperfeito da própria vontade humana. E para resolver esse problema, a Filosofia Medieval recorreu à fé como resposta central: Deus, em sua misericórdia, prometeu dar a redenção aos homens por meio de Cristo, para salvá-los de sua condição maculada.


Por fim, tais reflexões sobre Ética e Moral no período Medieval e Renascimento, colocam-se como ponto de inflexão de um novo momento de ordem e de pensamento filosófico, com as visões focadas no homem neste período de transição. Esse novo olhar deve seguir de pano de fundo para as mudanças mais profundas com o advento do Iluminismo.


Manoel Serafim
Filósofo e escritor
Membro da Academia de Letras
Capistrano de Abreu

 


terça-feira, 21 de março de 2023

Direitos Humanos para quê?

 

Afinal, Direitos Humanos para quê?  Qual a relação desse Direito com o Estado, Capitalismo, com a Educação, Ética? No Brasil, falar em Direitos Humanos é intempestivamente falar em Direitos para pessoas que cometeram crimes, é falar de algo totalmente pejorativo. Abordaremos o assunto com amparo em filósofos e com a ciência política, cujo lócus terá uma dimensão histórica e, principalmente, filosófica. O conceito de DH na perspectiva filosófica está alicerçado em princípios os quais definem a própria condição humana. Para Kant (1980), o homem deve ser considerado como fim em si mesmo. O homem é um ser cuja existência constitui um valor absoluto, ou seja, nada do que existe no mundo lhe é superior ou equivalente. A dignidade é um valor incondicional (ela deve existir independentemente de qualquer coisa), incomensurável (não se pode medir ou avaliar sua extensão), insubstituível (nada pode ocupar seu lugar de importância na nossa vida), e não admite equivalente (ela está acima de qualquer outro princípio ou ideia).

De um ponto formal, o conceito de DH está ancorado na CF de 1988, em seu Artigo 5º, caput, que garante a todos os brasileiros a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade. No Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH), e no Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos (PNEDH), em 2006, que prevê uma série de políticas públicas no âmbito educacional.  Desta forma, o CNDH e PNEDH são instrumentos sociais para enfrentamento por busca de Direitos em termo lato sensu, no sentido de promover a dignidade da pessoa humana. 

Eticamente, os direitos humanos devem ser encarados como fundamento da responsabilidade a priori, sendo reconhecidos como DH inseparáveis da inviolabilidade da dignidade, indivisibilidade e universal.  Assim, viola-se quando, por exemplo, deixa-se alguém com fome, sem educação, quando se faz torturas, com prisões ilegais etc. Outro fator ético muito importante na relação do DH é indivisibilidade dos direitos e a universalidade, pois não adianta o ser humano ter direito à educação e não ter direito à comida; não adianta ter direito a votar e não ter direito de ir à escola; não adianta ter direito a professar sua fé e ser torturado no outro dia. 

Através do racionalismo, a vida humana foi totalmente transformada por revoluções, de tal sorte que as relações humanas também foram abaladas. Hodiernamente, conforme sociólogo polonês Zygmunt Bauman, (1925-2017), vivemos a Sociedade Líquida, sociedade dominada pelas descrenças absolutas em valores que outrora eram tidos como inquestionáveis e incomensuráveis. Tal posicionamento tem trazido maior problema para sociedades, porquanto a própria descrença absoluta no homem, na organização política e com o poder, de fato abala ainda mais a persecução de efetivar Direitos.

Dentro de uma corrente mais otimista na relação de poder e da política, o sociólogo estadunidense Talcott Parsons (1902-1979) defendia que, quanto mais educada uma sociedade for, mais ela terá condições de se autorregular e evoluir em melhorias e condições sociais. Acreditamos ser a educação o maior problema de países mais pobres, o que gera todos os outros. A educação, em sentido geral e continuada, leva a sociedade para os debates políticos e gera responsabilidade política nos cidadãos. 

No caso do Brasil, a política pública brasileira deve estar alinhada, assim como foram as maiores potência do mundo, ao Estado Social de Direito, cujos valores estariam no Estado providência, assegurando o bem-estar da sociedade e em desenvolver laços para assegurar um bom futuro aos cidadãos e garantir Direitos Humanos.

Por fim, e por considerar o problema do nosso país ser, antes de quaisquer outro, uma decisão política, ou seja, de políticas públicas, o Brasil deve decidir para qual lado deve caminhar, seja numa visão mais conservadora ou menos conservadora em sentido de governança do Estado e, portanto, na garantia de efetivar Direitos Humanos aos seus cidadãos.


Por Manoel Serafim

Filósofo e escritor

 

quinta-feira, 2 de março de 2023

O psicopata e sua interface com o poder


O psicopata e sua interface com o poder

Quando se fala em psicopatas normalmente se associa a criminosos terríveis cujas vítimas são mortas de maneira brutal e sem explicação aparente. São geralmente associados a crimes sexuais e contra criança e adolescente. São imagens romantizadas trazidas pelo cinema, pois na realidade, as ações dos indivíduos com condutopatias são mais recorrentes nas atividades de vida social do que imaginamos.

Segundo o professor, escritor e psiquiatra forense Guido Palomba, a psicopatia e seus termos comuns (psicopata, sociopata, e mais como ele mesmo gosta de denominar - condutopata) são pessoas cuja conduta está alheia a valores éticos e morais. Os psicopatas nascem, crescem, desenvolvem-se e morrem assim, sendo incurável e orgânica. Os condutopatas são limítrofes entre o doente mental e a pessoa de conduta normal. Essa área de fronteira, segundo Palomba, é porque, diferente do doente mental, que age com fugir da realidade, o condutopata age com consciência para chegar a seus objetivos.

Outras características dos psicopatas são a ausência de arrependimento, sentir-se superior, normatizador de tudo, criar máscaras sociais, manipuladores, sem piedade, compaixão e altruísmo. São indivíduos híbridos - como os morcegos que têm asas, voam e não são pássaros; têm pelos e não são poríferos -, e são capazes de enganar a muitos.

Nas cadeias sociais, eles são ávidos pelo poder e usam estratégias para pavimentar sua chegada lá. A cadeia de comando é fascinante para eles, são terrivelmente nocivos e aonde chegam causam grandes estragos sociais. Como estratégia de poder, Hitler fundou o nazismo; Mussolini, o fascismo etc. O exemplo da Segunda Guerra, na qual Hitler chegou ao poder e matou mais 58 milhões de pessoas no mundo, é clássico para ilustrar a ação de uma mente psicopata. Eles sempre buscam estratégias para chegar ao poder, e quando chegam, o ônus quem paga é o subordinado, uma vez que, no exercício extremo de sua personificação, querem a perpetuação no poder.

Aqui fazemos um parêntese para dizer que, quando em ação, tanto o sociopata como o Poder tem via de mão dupla, isto é, cada um ganha um pouco na ação. É bem verdade que o Poder, quando lhe convém, adora o psicopata. Vejamos o que fez Hitler!!! Eles são bem-vindos quando há grandes convulsões sociais, políticas e, principalmente, econômica. A fonte principal do Poder é mandar a outrem a execução da ordem, ação, muitas vezes ordens duras e sem compaixão. É justamente aqui que ele pode contar com a figura do psicopata, justamente aquele que vai agir a rigor, sem medo de ser feliz e sem se preocupar com valores éticos e morais. Nesse jogo de peso e contrapeso, ora a Estado/Corporação ganha com ações duras sobre seus dominados, ora o psicopata ganha fazendo seus desejos mais intimistas. É possível que nas escolhas de chefias e lideranças de instituições/empresas, determinadas características sejam levadas em conta para escolher lideranças.

Ao final desta pequena exposição, será possível identificar facilmente um psicopata ou condutopata … A resposta, segundo a psiquiatria, é não! Para identificar essas figuras humanas tóxicas é preciso estudar seu histórico de vida e suas ações. A população mundial tem a média de 2% de psicopata, portanto, cuidado, você pode estar ao lado de um psicopata!!!

 

Por Manoel Serafim

Filósofo,  escritor, 

Membro da Academia de Letras 

Capistrano de Abreu 

Especialista em ciência política 


Romper a Bolha Informacional: por uma Consciência Crítica no regime da Informação

Romper a Bolha Informacional: por uma Consciência Crítica no regime da Informação Por Manoel Serafim – Filósofo e Especialista em Ciências P...