segunda-feira, 27 de março de 2023

A visão ética da Idade Média e Renascimento, em Santo Agostinho e Pico Della Mirandola

A consciência moral proposta pelo filósofo cristão Santo Agostinho - Agostinho de Hipona (354-430 d.C.) - está ligado diretamente à separação do homem pecador de Deus supremo, e essa conexão se fará através da graça divina. Santo Agostinho propõe para sua teoria filosófica uma releitura de Platão, e cria o conceito de livre-arbítrio com três conceitos-chave. O autor estabelece: o Mal físico, por meio de doenças, pragas; o Mal metafísico, cometido por limitações da condição humana, e o Mal moral, fruto do mal de nossas escolhas erradas.

Desta forma, o homem tem consciência sobre seus atos e escolhas, porém essas escolhas devem aproximar o homem de Deus. Portanto, para exercer o bem, o homem tem duas condições: a graças de Deus e o livre-arbítrio. Sem graça não há o bem; sem o livre-arbítrio não seria possível à escolha do bem. Assim, Deus dá à graça e a possibilidade de o homem ser bom, através de ações pautadas na escolha da fé.

Por outro lado, o pensamento filosófico do Renascimento tem estabelecido outros parâmetros éticos e morais do ser humano.  O homem é definido como meio de equilíbrio de todas as coisas. Com essa visão, para o brilhante jovem renascentista Pico Della Mirandola (1463-1494), o homem, na criação divina e sua queda pelo pecado, tem adquirido dignidade através do exercício do livre-arbítrio. Portanto, para esse pensador, deveria ser estabelecida uma nova ordem na fé cristã, a qual deveria dar maior expoente na capacidade intelectualista do homem.  Neste sentido e sem negar a fé, existe maior diferença entre a Ética da Idade Média, na qual o ser ético - este totalmente alinhado ao ser divino, aos dogmas, - com o que é colocado na visão renascentista.  Na visão de Pico Della Mirandola, a liberdade do homem, com o poder de escolha, estabeleceu-se maior independência do homem ao poder religioso.

O tema proposto neste ensaio se encontra diretamente ligado aos preceitos filosóficos e morais da Idade Média (V e XV) e ao período do Renascimento cultural, século XIV e o fim do século XVI. Abordaremos duas charges THAVES, Bob. Frank & Ernest, e Calvin e Haroldo: e foi assim que tudo começou, em que são discutidos: a consciência moral e autonomia para deliberação. Na primeira tirinha em que um interlocutor perguntou ao outro se este segue sua consciência moral, e obtendo como resposta: Não...meu senso moral tem um seletor de chamadas...podemos dizer, dentre outras possibilidades, que a voz da consciência cede lugar às variadas possibilidades de escolhas e liberdades do homem renascentista.

Na segunda tirinha, em que há questionamentos sobre a crença no destino e na predestinação da vida humana, há também uma satirização sobre a condição humana colocar por Deus. Isto é, na visão cristão-medieval o homem teve seu destino já determinado por Deus e só a graças deve mudar isso. Dessa maneira, o cristianismo medieval pressupõe que o erro é parte da natureza humana em decorrência do caráter imperfeito da própria vontade humana. E para resolver esse problema, a Filosofia Medieval recorreu à fé como resposta central: Deus, em sua misericórdia, prometeu dar a redenção aos homens por meio de Cristo, para salvá-los de sua condição maculada.


Por fim, tais reflexões sobre Ética e Moral no período Medieval e Renascimento, colocam-se como ponto de inflexão de um novo momento de ordem e de pensamento filosófico, com as visões focadas no homem neste período de transição. Esse novo olhar deve seguir de pano de fundo para as mudanças mais profundas com o advento do Iluminismo.


Manoel Serafim
Filósofo e escritor
Membro da Academia de Letras
Capistrano de Abreu

 


terça-feira, 21 de março de 2023

Direitos Humanos para quê?

 

Afinal, Direitos Humanos para quê?  Qual a relação desse Direito com o Estado, Capitalismo, com a Educação, Ética? No Brasil, falar em Direitos Humanos é intempestivamente falar em Direitos para pessoas que cometeram crimes, é falar de algo totalmente pejorativo. Abordaremos o assunto com amparo em filósofos e com a ciência política, cujo lócus terá uma dimensão histórica e, principalmente, filosófica. O conceito de DH na perspectiva filosófica está alicerçado em princípios os quais definem a própria condição humana. Para Kant (1980), o homem deve ser considerado como fim em si mesmo. O homem é um ser cuja existência constitui um valor absoluto, ou seja, nada do que existe no mundo lhe é superior ou equivalente. A dignidade é um valor incondicional (ela deve existir independentemente de qualquer coisa), incomensurável (não se pode medir ou avaliar sua extensão), insubstituível (nada pode ocupar seu lugar de importância na nossa vida), e não admite equivalente (ela está acima de qualquer outro princípio ou ideia).

De um ponto formal, o conceito de DH está ancorado na CF de 1988, em seu Artigo 5º, caput, que garante a todos os brasileiros a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade. No Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH), e no Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos (PNEDH), em 2006, que prevê uma série de políticas públicas no âmbito educacional.  Desta forma, o CNDH e PNEDH são instrumentos sociais para enfrentamento por busca de Direitos em termo lato sensu, no sentido de promover a dignidade da pessoa humana. 

Eticamente, os direitos humanos devem ser encarados como fundamento da responsabilidade a priori, sendo reconhecidos como DH inseparáveis da inviolabilidade da dignidade, indivisibilidade e universal.  Assim, viola-se quando, por exemplo, deixa-se alguém com fome, sem educação, quando se faz torturas, com prisões ilegais etc. Outro fator ético muito importante na relação do DH é indivisibilidade dos direitos e a universalidade, pois não adianta o ser humano ter direito à educação e não ter direito à comida; não adianta ter direito a votar e não ter direito de ir à escola; não adianta ter direito a professar sua fé e ser torturado no outro dia. 

Através do racionalismo, a vida humana foi totalmente transformada por revoluções, de tal sorte que as relações humanas também foram abaladas. Hodiernamente, conforme sociólogo polonês Zygmunt Bauman, (1925-2017), vivemos a Sociedade Líquida, sociedade dominada pelas descrenças absolutas em valores que outrora eram tidos como inquestionáveis e incomensuráveis. Tal posicionamento tem trazido maior problema para sociedades, porquanto a própria descrença absoluta no homem, na organização política e com o poder, de fato abala ainda mais a persecução de efetivar Direitos.

Dentro de uma corrente mais otimista na relação de poder e da política, o sociólogo estadunidense Talcott Parsons (1902-1979) defendia que, quanto mais educada uma sociedade for, mais ela terá condições de se autorregular e evoluir em melhorias e condições sociais. Acreditamos ser a educação o maior problema de países mais pobres, o que gera todos os outros. A educação, em sentido geral e continuada, leva a sociedade para os debates políticos e gera responsabilidade política nos cidadãos. 

No caso do Brasil, a política pública brasileira deve estar alinhada, assim como foram as maiores potência do mundo, ao Estado Social de Direito, cujos valores estariam no Estado providência, assegurando o bem-estar da sociedade e em desenvolver laços para assegurar um bom futuro aos cidadãos e garantir Direitos Humanos.

Por fim, e por considerar o problema do nosso país ser, antes de quaisquer outro, uma decisão política, ou seja, de políticas públicas, o Brasil deve decidir para qual lado deve caminhar, seja numa visão mais conservadora ou menos conservadora em sentido de governança do Estado e, portanto, na garantia de efetivar Direitos Humanos aos seus cidadãos.


Por Manoel Serafim

Filósofo e escritor

 

quinta-feira, 2 de março de 2023

O psicopata e sua interface com o poder


O psicopata e sua interface com o poder

Quando se fala em psicopatas normalmente se associa a criminosos terríveis cujas vítimas são mortas de maneira brutal e sem explicação aparente. São geralmente associados a crimes sexuais e contra criança e adolescente. São imagens romantizadas trazidas pelo cinema, pois na realidade, as ações dos indivíduos com condutopatias são mais recorrentes nas atividades de vida social do que imaginamos.

Segundo o professor, escritor e psiquiatra forense Guido Palomba, a psicopatia e seus termos comuns (psicopata, sociopata, e mais como ele mesmo gosta de denominar - condutopata) são pessoas cuja conduta está alheia a valores éticos e morais. Os psicopatas nascem, crescem, desenvolvem-se e morrem assim, sendo incurável e orgânica. Os condutopatas são limítrofes entre o doente mental e a pessoa de conduta normal. Essa área de fronteira, segundo Palomba, é porque, diferente do doente mental, que age com fugir da realidade, o condutopata age com consciência para chegar a seus objetivos.

Outras características dos psicopatas são a ausência de arrependimento, sentir-se superior, normatizador de tudo, criar máscaras sociais, manipuladores, sem piedade, compaixão e altruísmo. São indivíduos híbridos - como os morcegos que têm asas, voam e não são pássaros; têm pelos e não são poríferos -, e são capazes de enganar a muitos.

Nas cadeias sociais, eles são ávidos pelo poder e usam estratégias para pavimentar sua chegada lá. A cadeia de comando é fascinante para eles, são terrivelmente nocivos e aonde chegam causam grandes estragos sociais. Como estratégia de poder, Hitler fundou o nazismo; Mussolini, o fascismo etc. O exemplo da Segunda Guerra, na qual Hitler chegou ao poder e matou mais 58 milhões de pessoas no mundo, é clássico para ilustrar a ação de uma mente psicopata. Eles sempre buscam estratégias para chegar ao poder, e quando chegam, o ônus quem paga é o subordinado, uma vez que, no exercício extremo de sua personificação, querem a perpetuação no poder.

Aqui fazemos um parêntese para dizer que, quando em ação, tanto o sociopata como o Poder tem via de mão dupla, isto é, cada um ganha um pouco na ação. É bem verdade que o Poder, quando lhe convém, adora o psicopata. Vejamos o que fez Hitler!!! Eles são bem-vindos quando há grandes convulsões sociais, políticas e, principalmente, econômica. A fonte principal do Poder é mandar a outrem a execução da ordem, ação, muitas vezes ordens duras e sem compaixão. É justamente aqui que ele pode contar com a figura do psicopata, justamente aquele que vai agir a rigor, sem medo de ser feliz e sem se preocupar com valores éticos e morais. Nesse jogo de peso e contrapeso, ora a Estado/Corporação ganha com ações duras sobre seus dominados, ora o psicopata ganha fazendo seus desejos mais intimistas. É possível que nas escolhas de chefias e lideranças de instituições/empresas, determinadas características sejam levadas em conta para escolher lideranças.

Ao final desta pequena exposição, será possível identificar facilmente um psicopata ou condutopata … A resposta, segundo a psiquiatria, é não! Para identificar essas figuras humanas tóxicas é preciso estudar seu histórico de vida e suas ações. A população mundial tem a média de 2% de psicopata, portanto, cuidado, você pode estar ao lado de um psicopata!!!

 

Por Manoel Serafim

Filósofo,  escritor, 

Membro da Academia de Letras 

Capistrano de Abreu 

Especialista em ciência política 


Romper a Bolha Informacional: por uma Consciência Crítica no regime da Informação

Romper a Bolha Informacional: por uma Consciência Crítica no regime da Informação Por Manoel Serafim – Filósofo e Especialista em Ciências P...