domingo, 13 de abril de 2025

Romper a Bolha Informacional: por uma Consciência Crítica no regime da Informação

Romper a Bolha Informacional: por uma Consciência Crítica no regime da Informação

Por Manoel Serafim – Filósofo e Especialista em Ciências Políticas

Vivemos um tempo em que o poder não mais se exibe por meio da força ostensiva ou da ordem direta, mas por sutilezas algorítmicas que se escondem atrás da aparência de liberdade. Estamos todos conectados — e justamente aí está o novo cárcere. Não mais panóptico de muros e grades, mas de interfaces e rastros digitais. A dominação atual se dá no que Byung-Chul Han chamou de regime da informação, acoplado a um capitalismo de vigilância que transforma seres humanos em gado; consumidores, sim, mas antes de tudo: produtores involuntários de dados.
Não se trata mais de disciplinar corpos, como no modelo foucaultiano. A nova lógica do poder não quer corpos dóceis, quer almas produtivas, subjetividades rendidas à performance constante, indivíduos que se acreditam livres, autênticos, criativos; mas que estão, de fato, psicopoliticamente domados. O sujeito pós-moderno não é mais adestrado à obediência, mas seduzido à autoexploração.
O corpo, outrora alvo da biopolítica, torna-se hoje objeto de uma estética mercadológica. A energia produtiva já não vem do músculo, mas do clique, do post, da exposição voluntária. A docilidade disciplinar dá lugar à autoentrega desejada. Já não somos trabalhadores vigiados, somos influenciadores espontâneos, entregando diariamente nossas rotinas, gostos, deslocamentos, desejos e afetos às grandes corporações de dados.
Foucault diagnosticou com exatidão a transição do poder soberano ao poder disciplinar. Mas a nova era escapa até mesmo a ele. O que temos agora é o poder invisível da transparência compulsória, no qual a liberdade aparente serve à dominação real. Como alerta Han, o sujeito do regime da informação é o próprio carrasco de si mesmo.
Neste contexto, falar em liberdade, autonomia e crítica exige mais que palavras. Exige romper a bolha informacional. Aquela bolha que nos ilude com a pluralidade de vozes, mas que é apenas o espelho algorítmico dos nossos próprios vieses. Os dados que nos são devolvidos pela rede não nos abrem ao novo, apenas reforçam o que já cremos — e aí está a mais sofisticada forma de prisão: aquela que nos permite crer que somos livres enquanto nos aprisiona no previsível.
Por isso, urge o cultivo da suspeita; o reativismo do pensamento crítico. É necessário ler para além dos links recomendados. Pensar contra si mesmo. Voltar a desconfiar do óbvio. Estudar Han, Foucault, Adorno — mas também viver suas inquietações. Precisamos reaprender a pensar politicamente em tempos de controle digital apolítico.
Entrementes, o ato de romper com o regime da informação não significa abdicar da tecnologia, mas reapropriar-se dela criticamente. É necessário usar o meio contra o meio. Fazer da palavra o desvio. Do pensamento, a resistência. A filosofia nunca foi tão necessária. Porque, se a dominação hoje não se impõe pelo castigo, mas pela curadoria algorítmica da realidade, é, ainda, o ato mais revolucionário que podemos cometer.

Referências:

Byung-Chul Han – Psicopolítica, No Enxame, Sociedade da Transparência
Michel Foucault – Vigiar e Punir

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