domingo, 13 de abril de 2025

Romper a Bolha Informacional: por uma Consciência Crítica no regime da Informação

Romper a Bolha Informacional: por uma Consciência Crítica no regime da Informação

Por Manoel Serafim – Filósofo e Especialista em Ciências Políticas

Vivemos um tempo em que o poder não mais se exibe por meio da força ostensiva ou da ordem direta, mas por sutilezas algorítmicas que se escondem atrás da aparência de liberdade. Estamos todos conectados — e justamente aí está o novo cárcere. Não mais panóptico de muros e grades, mas de interfaces e rastros digitais. A dominação atual se dá no que Byung-Chul Han chamou de regime da informação, acoplado a um capitalismo de vigilância que transforma seres humanos em gado; consumidores, sim, mas antes de tudo: produtores involuntários de dados.
Não se trata mais de disciplinar corpos, como no modelo foucaultiano. A nova lógica do poder não quer corpos dóceis, quer almas produtivas, subjetividades rendidas à performance constante, indivíduos que se acreditam livres, autênticos, criativos; mas que estão, de fato, psicopoliticamente domados. O sujeito pós-moderno não é mais adestrado à obediência, mas seduzido à autoexploração.
O corpo, outrora alvo da biopolítica, torna-se hoje objeto de uma estética mercadológica. A energia produtiva já não vem do músculo, mas do clique, do post, da exposição voluntária. A docilidade disciplinar dá lugar à autoentrega desejada. Já não somos trabalhadores vigiados, somos influenciadores espontâneos, entregando diariamente nossas rotinas, gostos, deslocamentos, desejos e afetos às grandes corporações de dados.
Foucault diagnosticou com exatidão a transição do poder soberano ao poder disciplinar. Mas a nova era escapa até mesmo a ele. O que temos agora é o poder invisível da transparência compulsória, no qual a liberdade aparente serve à dominação real. Como alerta Han, o sujeito do regime da informação é o próprio carrasco de si mesmo.
Neste contexto, falar em liberdade, autonomia e crítica exige mais que palavras. Exige romper a bolha informacional. Aquela bolha que nos ilude com a pluralidade de vozes, mas que é apenas o espelho algorítmico dos nossos próprios vieses. Os dados que nos são devolvidos pela rede não nos abrem ao novo, apenas reforçam o que já cremos — e aí está a mais sofisticada forma de prisão: aquela que nos permite crer que somos livres enquanto nos aprisiona no previsível.
Por isso, urge o cultivo da suspeita; o reativismo do pensamento crítico. É necessário ler para além dos links recomendados. Pensar contra si mesmo. Voltar a desconfiar do óbvio. Estudar Han, Foucault, Adorno — mas também viver suas inquietações. Precisamos reaprender a pensar politicamente em tempos de controle digital apolítico.
Entrementes, o ato de romper com o regime da informação não significa abdicar da tecnologia, mas reapropriar-se dela criticamente. É necessário usar o meio contra o meio. Fazer da palavra o desvio. Do pensamento, a resistência. A filosofia nunca foi tão necessária. Porque, se a dominação hoje não se impõe pelo castigo, mas pela curadoria algorítmica da realidade, é, ainda, o ato mais revolucionário que podemos cometer.

Referências:

Byung-Chul Han – Psicopolítica, No Enxame, Sociedade da Transparência
Michel Foucault – Vigiar e Punir

domingo, 17 de novembro de 2024

O Ambiente de Trabalho Tóxico em Instituições Públicas: reflexões filosóficas e a contribuição da Ciência Política


O ambiente de trabalho tóxico é uma problemática de grande relevância nas instituições públicas, pois, além de impactar diretamente os servidores, afeta a eficiência e a legitimidade do serviço público perante a sociedade. Esse fenômeno pode ser compreendido a partir de uma análise interdisciplinar que une conceitos filosóficos, políticos e jurídicos, proporcionando uma visão crítica das causas, das consequências e das possibilidades de superação.

O objetivo deste texto é refletir sobre as causas, consequências e possibilidades de superação desses ambientes. A contribuição da Ciência Política para essa compreensão está na análise crítica das estruturas de poder, da burocracia e da gestão pública, oferecendo uma reflexão sobre como as dinâmicas hierárquicas e a falta de mecanismos participativos podem criar e perpetuar ambientes de trabalho tóxicos, comprometendo os princípios da administração pública e a qualidade do serviço oferecido à sociedade.

Michel Foucault, em Vigiar e Punir (1975), analisa as relações de poder como práticas onipresentes em todas as esferas sociais, incluindo o espaço de trabalho. Nas instituições públicas, a configuração hierárquica e a rigidez normativa intensificam a toxicidade quando o poder é exercido de maneira autoritária ou negligente. Foucault ressalta que dispositivos de controle e vigilância exacerbados despersonalizam os indivíduos, submetendo-os a uma obediência sistemática que inibe a criatividade e a autonomia. Esse cenário encontra eco no conceito de "gaiola de ferro", cunhado por Max Weber em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo (1905), que descreve a desumanização das relações sob uma burocracia altamente racionalizada e voltada exclusivamente à eficiência.

Norberto Bobbio, em Teoria Geral da Política (2000), destaca a importância da democracia e da participação nas organizações como formas de equilibrar o poder e combater dinâmicas tóxicas. A ausência de mecanismos participativos internos nas instituições públicas reforça estruturas hierárquicas opressivas, perpetuando a desigualdade de poder e desconectando os servidores da gestão. Essa prática compromete tanto o ambiente organizacional quanto a observância dos princípios constitucionais da administração pública, como a legalidade, a impessoalidade, a moralidade, a publicidade e a eficiência, conhecidos como princípios do LIMPE.

Hannah Arendt, em A Condição Humana (1958), oferece um alerta importante ao discutir a ética e a responsabilidade no exercício do poder. A banalização de práticas abusivas em um ambiente tóxico reflete a "banalidade do mal", em que ações prejudiciais se tornam corriqueiras e institucionalizadas. Esse tipo de ambiente não apenas deteriora a moral dos servidores, mas também compromete a qualidade do serviço público e prejudica a confiança do cidadão no Estado.

Do ponto de vista jurídico, Fernando Capez, em Curso de Direito Administrativo (2021), contribui para a discussão ao afirmar que a administração pública deve observar os princípios constitucionais não apenas como preceitos formais, mas como instrumentos para proteger direitos fundamentais e garantir o equilíbrio nas relações de trabalho. Capez sublinha que gestores públicos têm a responsabilidade de implementar práticas que promovam respeito, equidade e transparência, assegurando que o ambiente laboral seja compatível com os valores republicanos e democráticos.

A superação de ambientes de trabalho tóxicos em instituições públicas exige, portanto, uma abordagem interdisciplinar que combine os elementos estruturais da burocracia, os aspectos éticos das relações humanas e os fundamentos jurídicos da administração pública. A implementação de uma gestão participativa, humanizada e orientada por princípios constitucionais é fundamental para transformar essas instituições em espaços de trabalho mais justos e eficientes.


Referências

ARENDT, Hannah. A Condição Humana. São Paulo: Forense Universitária, 1958.

BOBBIO, Norberto. Teoria Geral da Política. Rio de Janeiro: Edições 70, 2000.

CAPEZ, Fernando. Curso de Direito Administrativo. São Paulo: Saraiva, 2021.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Petrópolis: Vozes, 1975.

WEBER, Max. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.


Crédito: Manoel Serafim, graduado em Letras e Filosofia (UFC), especialista em Ciências Políticas. Articulista e escritor, Membro do Conselho da Comunidade de Fortaleza (CCF), do Poder Judiciário/Comarca de Fortaleza, Membro da Academia de Letras Capistrano de Abreu, com dedicação a temas como Semiótica Discursiva. Análise do Discurso Francesa, Ciências Políticas análise política, Teoria Geral do Estado, Aconselhamento Filosófico, Estoicismo, Existencialismo.


sábado, 2 de setembro de 2023

Do rádio eu conto

O rádio relógio, um modesto artefato em sua concepção, transfigurou-se em uma presença constante em meu lar durante uma década de minha infância. Era um daqueles objetos que se mesclava discretamente com o ambiente, em contraste com os aparelhos eletrônicos modernos que começavam a invadir nossa casa.

Recordo-me das noites silenciosas, quando todos já se entregavam ao sono, exceto eu e o rádio. Era nesses momentos furtivos que ele se tornava meu confidente. Sussurrava-me histórias e melodias que penetravam em minha mente como segredos revelados em murmúrios. Naquela época, eu não compreendia plenamente a preciosidade daquilo, mas intuía sua singularidade.

O rádio relógio constituía minha janela para o vasto mundo. Transportava-me a terras longínquas, narrando aventuras magníficas, trazendo notícias de lugares remotos e inundando meu coração de emoções com suas músicas. Eu o abracei como um amigo íntimo, um confidente que guardava minhas alegrias e tristezas.

No entanto, à medida que o tem o tempo prosseguia, comecei a perceber o quanto as coisas materiais eram meras construções sociais. A sociedade emprestava a esses objetos significados que transcendiam sua existência física. Eu, ingênuo, estava preso nesse ciclo de apegos.

Com a perspectiva do tempo, tornou-se evidente como o capitalismo perpetua essa espiral de acumulação desenfreada. A ideia de que a posse de mais bens materiais nos conduzirá a uma felicidade duradoura é uma ilusão perigosa. O rádio relógio se tornou uma recordação vívida de como podemos nos vincular a coisas que, ao fim e ao cabo, são efêmeras.

O tempo inexoravelmente passou,  meu rádio se desfez, tal como infância transformou-se em memórias. Hoje, reconheço que a verdadeira riqueza reside nas experiências compartilhadas, nos momentos preciosos vividos com aqueles que amamos, e na sabedoria adquirida ao longo da jornada da vida.

Ao refletir sobre aquele humilde objeto músical, não o percebo como uma relíquia valiosa em si mesma, mas como um símbolo das armadilhas do apego material. A vida é moldada por valores construídos socialmente, mas nosso caminho se torna mais significativo quando questionamos esses valores e buscamos uma compreensão mais profunda do que é genuinamente essencial. O rádio, que outrora ecoava melodias em meu quarto, agora ecoa como um lembrete sutil da efemeridade das coisas e da importância de se libertar das amarras do materialismo vazio.


quarta-feira, 9 de agosto de 2023

As aventuras de Kito


Kito, uma entidade de pelos e olhos curiosos, navegava pelas águas tumultuadas de sua vida com a intensidade das palavras que insuflavam sua própria vida. Era uma criatura que, embora tivesse quatro patas, carregava consigo uma profundidade de emoções que só os olhos atentos poderiam vislumbrar.
Nascido de uma vira-lata de linhagem pura, Kito emergiu em um mundo que oscilava entre o familiar e o desconhecido. Separado de sua mãe e irmãos nos primeiros vinte dias de existência, ele parecia guardar em sua essência o eco daqueles primeiros latidos de despedida, uma melodia silenciosa que apenas seu coração canino era capaz de ouvir.
A vida se desdobrava em diferentes cenas, como os capítulos de um livro  construído com as complexidades da mente humana. Em um novo lar, os olhos curiosos de uma adolescente e os risos infantis de um garotinho de quatro anos deram início a um novo capítulo de sua história. Era um recomeço permeado de encantamento e desafios, um espaço onde Kito encontrava abrigo, mas também enfrentava os primeiros obstáculos de seu caminho.
Os carrapatos se tornaram os antagonistas dessa narrativa canina, aderindo à sua pele como sombras inescapáveis. Enquanto sua nova guardiã, apesar de todos os esforços, não conseguia libertá-lo dessas criaturas indesejadas, Kito encontrava-se envolvido em uma luta constante pela sua própria existência. Suas visitas frequentes ao veterinário pareciam páginas rabiscadas de tratamento após tratamento, como parágrafos incompletos em uma história de sofrimento e busca por alívio.
No entanto, a voz da sociedade sussurrava palavras cruéis, como versos tristes que pairavam no ar: "os vira-latas têm sangue doce e os carrapatos adoram". E embora as palavras fossem apenas palavras, elas ecoavam em Kito, como se sua própria natureza fosse a causa de sua agonia. Mas sua dona, embora às vezes frustrada, persistia em seus cuidados, resistindo à tragédia iminente e se recusando a aceitar um final prematuro para a história de Kito.
A jornada de Kito era permeada por alegrias e tristezas entrelaçadas. A vida seguiu seu curso, marcada pela interação complexa entre os membros da família. As palavras "Não aguento mais esse cachorro" refletiam não apenas uma exaustão momentânea, mas também a luta entre a responsabilidade e o desejo, como se cada personagem representasse um conflito interior, uma dualidade em constante evolução.
Em um dia que poderia ser facilmente encontrado nas páginas de um conto, o destino brincou com os fios do enredo, cruzando o caminho de Seu Pedro. Esse encontro inesperado levou Kito a um novo capítulo, como se as palavras estivessem dançando em um livro de contos imprevisíveis. Por um momento, parecia que a história havia encontrado um desfecho, mas… a trama se revelou mais intrincada do que se poderia imaginar.
O retorno de Kito à casa de sua família original trouxe consigo uma enxurrada de sentimentos: alegria por tê-la de volta, mas também tristeza por não terem conseguido livrá-lo de sua agonia. Enquanto os carrapatos continuavam a atormentar Kito, sua jornada persistia como uma narrativa caleidoscópica, repleta de cores e formas inesperadas.
O destino brincava novamente quando o próximo dono, Seu Manoel, surgiu no horizonte. Uma promessa de cuidado e carinho parecia oferecer a Kito um novo começo, mas a garotinha, com seu coração impetuoso, recusava-se a aceitar a separação. Era como se as emoções dos personagens se fundissem com a tinta das palavras, criando uma história de intensidade crua, à medida que as vozes se entrelaçam em um coro de desejos e compreensões.
E, como uma reviravolta que poderia ser extraída de um enredo caminhesco, Kito retornou à sua família original mais uma vez, como um herói relutante que não estava disposto a deixar seu papel se esgotar. Nessa saga que parecia beirar o trágico e o cômico, a trama ganhava profundidade, com cada personagem representando um fragmento da complexidade humana.
O encontro com Sabino, um pastor evangélico com uma chácara distante, trouxe um último capítulo à vida de Kito. Como se as palavras ganhassem vida, as interações entre as famílias refletiam uma teia de relacionamentos que transcendia o espaço físico. A doação final de Kito simbolizava uma entrega que ia além das aparências, uma conexão que não poderia ser definida por limites tangíveis.
E assim, Kito encontrou um lugar no mundo, uma fusão de lares e afetos que transcendia o simples ato de adoção. Sua casinha e a companheira Mimi ecoavam a busca por pertencimento e segurança, uma busca que permeava caminhos para uma vida estável.  
E mesmo após o desfecho, o legado de Kito persistia como uma história entrelaçada: uma narrativa viva e pulsante que continuava a ressoar nos cantos mais profundos da imaginação.

Por Manoel Serafim
Escritor membro da Academia de Letras e Artes Capistrano de Abreu 

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

Marxismo: inimigo do Capitalismo e suas Implicações Sociais

 

O marxismo, uma teoria política e econômica forjada por Karl Marx e Friedrich Engels no século XIX, é amplamente reconhecido como um dos mais notáveis adversários do sistema capitalista. Sua análise incisiva das desigualdades e contradições inerentes ao capitalismo questionou profundamente os fundamentos da sociedade e propôs uma visão alternativa radical para a organização econômica e social. No cerne do marxismo encontra-se uma crítica fundamental à exploração do trabalho humano pelo capital. Marx sustentou que no seio do sistema capitalista, os trabalhadores (proletariado) cedem sua força de trabalho aos proprietários dos meios de produção (burguesia) em troca de salários. Esses detentores do capital, buscando maximizar os lucros, extraem um valor superior do trabalho dos trabalhadores em relação ao que pagam em salários, resultando em uma discrepância entre o valor criado pelos trabalhadores e a remuneração recebida. Essa discrepância, denominada mais-valia, constitui a essência da exploração capitalista.

Um dos mais notáveis aportes do marxismo é sua análise sobre a alienação. Marx argumentou que no contexto capitalista, os trabalhadores se alienam tanto de seu próprio labor quanto do produto, visto que lhes falta o controle sobre o processo de produção e estão separados dos frutos de seu trabalho. Esse distanciamento gera sentimentos de desprendimento, impotência e falta de realização, minando a conexão humana com o trabalho e com outros indivíduos. O marxismo também se debruçou sobre a concentração de riqueza e poder nas mãos de uma minoria, fator que desencadeia profundas desigualdades socioeconômicas. Marx previu que o capitalismo, dada sua natureza competitiva, culminaria na centralização do capital e na emergência de monopólios, agravando a exploração e corroendo a democracia. Intitulado como "o maior inimigo do capitalismo", o marxismo propugnou por uma transformação drástica da sociedade em direção ao socialismo e, em última instância, ao comunismo. No sistema socialista, os meios de produção seriam coletivamente possuídos pela sociedade, eliminando a exploração e possibilitando um controle mais democrático da economia. No comunismo, a sociedade almejaria um estágio de plena igualdade, abolindo a propriedade privada, eliminando as classes sociais e assegurando que cada indivíduo contribua e receba conforme suas necessidades.

Apesar de ter exercido influência sobre movimentos sociais e políticos ao redor do globo, o marxismo também enfrentou consideráveis críticas e desafios. Algumas delas destacam a falta de consideração pela complexidade da natureza humana, bem como pelas intricadas dinâmicas econômicas e sociais. Ademais, a implementação prática do marxismo em determinadas sociedades gerou controvérsias e suscitou questionamentos sobre liberdades individuais e direitos humanos.

Em última análise, o marxismo permanece como uma das teorias mais impactantes a desafiar os pilares do capitalismo, estimulando reflexões sobre alternativas socioeconômicas. Seja considerado como um antagonista declarado ao capitalismo ou como uma fonte inspiradora de mudanças sociais, o marxismo perdura como influente protagonista das discussões acerca de justiça, igualdade e da própria natureza da economia em nossa sociedade.

 Capitalismo, Desigualdade e suas Ramificações Sociais

O sistema capitalista, que forma a base econômica de muitas sociedades, não é apenas uma estrutura de produção e comércio, mas também um sistema que influencia profundamente questões sociais e humanas. Neste contexto, os proprietários dos meios de produção, os capitalistas, desempenham um papel central. Sua missão é alocar recursos, investir capital e empregar trabalhadores com o objetivo de maximizar os lucros. Entretanto, essa busca implacável pelo lucro pode resultar em consequências sociais abrangentes, incluindo exclusão, violência e um sistema prisional sobrecarregado. Um dos pilares do capitalismo é o acúmulo incessante de capital pelos capitalistas. Essa acumulação muitas vezes leva à concentração de riqueza em mãos de poucos, gerando profundas desigualdades socioeconômicas. À medida que a lacuna entre os ricos e os pobres se amplia, ocorre uma distribuição desigual de recursos e oportunidades, o que contribui diretamente para a exclusão social.

A busca incessante por lucro também fomenta uma cultura de competição e individualismo. Enquanto os indivíduos são incentivados a buscar o sucesso pessoal, as relações sociais muitas vezes são reduzidas a transações econômicas. Esse enfoque excessivo no individualismo pode levar à alienação social e agravar o risco de exclusão e marginalização. A exclusão social é agravada pela exploração de grupos vulneráveis, à medida que as empresas buscam cortar custos para maximizar seus lucros. Redução de salários, empregos precários e falta de benefícios são frequentemente resultados dessa busca por lucro, resultando na marginalização de trabalhadores e na criação de uma classe de pessoas lutando para atender às necessidades básicas. A exclusão social, por sua vez, alimenta a pobreza, o desemprego e a falta de acesso a serviços essenciais.

Além disso, a desigualdade econômica e a exclusão social podem gerar um ambiente propício para a violência. A falta de oportunidades e perspectivas, juntamente com a sensação de injustiça, pode levar à frustração e ao conflito. A criminalização de comportamentos frequentemente associados à pobreza pode aumentar ainda mais a população carcerária. O sistema prisional, muitas vezes, reflete e amplifica as desigualdades sociais, perpetuando um ciclo de exclusão e reincidência.

Em conclusão, o sistema capitalista, com seu foco na busca de lucro pelos capitalistas, pode gerar uma série de consequências sociais negativas. O acúmulo de capital, a ênfase no individualismo, a exclusão social e a violência estão interconectados nesse contexto. Para mitigar esses problemas, é crucial considerar abordagens econômicas e sociais alternativas que priorizem a equidade na distribuição de recursos, valorizem o bem-estar coletivo e forneçam oportunidades acessíveis para todos os membros da sociedade.

O Papel do Estado Constitucionalista na Implementação das Políticas Capitalistas e Controle Social

O estado constitucionalista desempenha um papel fundamental na implementação das políticas capitalistas e no exercício do controle social. O equilíbrio entre a promoção da atividade econômica e a proteção dos direitos individuais e coletivos é uma característica central desse modelo de Estado, permitindo que as políticas capitalistas se desenvolvam dentro de um quadro legal e regulatório, ao mesmo tempo em que se busca evitar excessos e desigualdades prejudiciais. O estado constitucionalista, por meio de sua estrutura legal e institucional, busca criar um ambiente favorável ao desenvolvimento das políticas capitalistas. Isso envolve a proteção dos direitos de propriedade, a garantia de um ambiente de negócios estável e a promoção da concorrência saudável. Ao estabelecer regras claras e justas, o Estado cria as condições necessárias para que as empresas prosperem, inovem e contribuam para o crescimento econômico.

Enquanto promove políticas capitalistas, o estado constitucionalista também se empenha em proteger os direitos individuais e coletivos. Isso inclui garantir que os trabalhadores tenham direitos laborais adequados, proteger os consumidores de práticas enganosas e assegurar que os setores vulneráveis da sociedade não sejam explorados. Esse equilíbrio é essencial para evitar abusos por parte das empresas e para criar uma sociedade mais justa. O Estado exerce um papel vital no controle social, monitorando e regulando as atividades econômicas para prevenir abusos e garantir que elas estejam alinhadas com os interesses da sociedade. Isso inclui a aplicação de leis antitruste para evitar monopólios prejudiciais à concorrência, a imposição de regulamentações ambientais para proteger os recursos naturais e a implementação de normas de segurança no local de trabalho para salvaguardar os direitos dos trabalhadores.

Também busca encontrar um equilíbrio delicado entre a promoção das políticas capitalistas e a garantia da justiça social. Isso significa que, enquanto permite a busca do lucro e a atividade econômica, o Estado também trabalha para evitar desigualdades extremas e assegurar que os benefícios do sistema cheguem a todos os estratos da sociedade.

Em resumo, o estado constitucionalista desempenha um papel crucial na implementação das políticas capitalistas e no controle social. Ele cria um ambiente legal e regulatório que favorece a atividade econômica, protege os direitos individuais e coletivos e assegura que a busca pelo lucro esteja alinhada com o “bem-estar” da sociedade.

 

 

Por Manoel Serafim

Filósofo

Esp. em Ciências Políticas

Membro da Academia de Letras Capistrano de Abreu

 

 

segunda-feira, 3 de julho de 2023

Coração valente



Um mundo onde os corações são os verdadeiros protagonistas, nossa mãe se destacava com sua história de vida. Há mais de 40 anos, ela enfrentou uma cirurgia cardíaca que mudaria seu destino para sempre. Seu coração, que batia com força e determinação, estava disposto a lutar pela vida.

Aquela cirurgia foi um marco em sua jornada, um desafio corajoso que exigiu sua confiança na equipe médica e em si mesma. Ela passou por momentos difíceis, enfrentando o medo e a incerteza, mas sempre manteve a fé em seu coração. Foi uma batalha em que o propósito da natureza estava intrinsecamente ligado à sua própria sobrevivência.

Após a cirurgia, nossa mãe embarcou em uma jornada de recuperação lenta e árdua. Ela enfrentou momentos de dor e fraqueza, mas seu coração resiliente nunca desistiu. Com determinação inabalável, ela seguiu cada passo do processo de cura, confiando na força vital que fluía dentro de si.

Ao longo dos anos, nossa mãe abraçou cada batida do seu coração como um presente precioso. Ela aprendeu a apreciar a vida em sua plenitude, valorizando os momentos simples e preciosos. Sua experiência com a cirurgia cardíaca moldou sua perspectiva, tornando-a mais grata e consciente do poder do coração humano.

Hoje, olhando para trás, vemos que a cirurgia cardíaca de nossa mãe há mais 40 anos foi um divisor de águas. Ela não apenas sobreviveu, mas floresceu. Seu coração valente e resiliente tornou-se um farol de inspiração para todos ao seu redor. Ela se tornou uma defensora da vida e do cuidado com a saúde cardíaca, compartilhando sua história de superação com o mundo.
A história de vida de nossa mãe é um testemunho do poder do coração humano e de nossa capacidade de encontrar propósito mesmo nas batalhas mais desafiadoras. Sua jornada nos ensinou a nunca subestimar o poder da determinação e a importância de seguir o curso natural da natureza. O coração de nossa mãe é um símbolo de força, esperança e amor inabalável, e estamos eternamente gratos por sua história ser parte de nossas vidas.

Maria Serafim da Silva
in memoriam

quinta-feira, 29 de junho de 2023

Ética em ambiente virtual corporativo


Ética em ambiente virtual corporativo

A ética desempenha um papel crucial nos grupos de WhatsApp em ambientes corporativos e condomínios, onde as interações ocorrem entre colegas de trabalho ou moradores. Ética refere-se ao conjunto de valores e princípios que guiam as ações e decisões de uma pessoa, buscando o bem-estar e o respeito mútuo. Em um grupo de WhatsApp corporativo, é essencial tratar os colegas com respeito, evitar conflitos e preservar a privacidade das informações compartilhadas. Além disso, é necessário ter cuidado com a disseminação de boatos ou informações falsas, exposições de pessoas, que podem prejudicar a reputação de pessoas ou empresas. 
No contexto legal, a nova lei de proteção de dados, como a LGPD no Brasil, tem implicações importantes para grupos de WhatsApp em ambientes corporativos. Essas leis visam garantir a privacidade e a segurança das informações pessoais dos indivíduos. Portanto, é necessário obter o consentimento adequado para o compartilhamento de dados pessoais, bem como adotar medidas de segurança para proteger essas informações contra acesso não autorizado.
Em resumo, os grupos de WhatsApp em ambientes corporativos e condomínios demandam uma postura ética dos participantes, respeitando a privacidade, evitando conflitos e adotando comportamentos morais adequados. Além disso, é essencial estar ciente das implicações legais e garantir a conformidade com as regulamentações aplicáveis. Com o estabelecimento de uma cultura ética e o cumprimento das leis vigentes, é possível promover uma comunicação saudável e preservar os direitos individuais.

Por Manoel Serafim
Filósofo

terça-feira, 20 de junho de 2023

Os ideais nazistas não morreram: foram internalizados por ações de homens de poder nas esferas administrativas públicas e privadas

 

Os ideais nazistas, infelizmente, não foram completamente erradicados após a Segunda Guerra Mundial. Acredita-se que eles ainda encontram espaço em diferentes esferas, incluindo as gestões empresariais. Essa conexão pode ser observada em movimentos neonazistas contemporâneos, como também em características semelhantes às de psicopatas presentes nas administrações corporativas.

Os ideais nazistas continuam a influenciar indivíduos que ocupam posições de poder, tanto no âmbito público quanto no privado. A sua internalização pode ocorrer de forma sutil, mas suas consequências são alarmantes. O Brasil ainda é um grande reduto do movimento nazista. Segundo a ONG Observatório do Terceiro Setor, existem mais 530 nucleos extremistas, cerca de 10 mil pessoas operando. A sensação de impunidade fez disparar o movimento nazista no país, cerca 270% em três anos. Os recentes ataques a escolas no Brasil são fruto deste movimento de extremistas. 

Os movimentos neonazistas e o integralismo brasileiro são exemplos de grupos que propagam tais ideais e buscam infiltrar-se nas estruturas empresariais para disseminar a intolerância, a supremacia racial e outras formas de discriminação.

Traços de condutopatas, como a falta de empatia, a manipulação e a busca por poder a qualquer custo, podem ser identificadas em algumas gestões públicas e privadas. Essas características refletem uma herança indireta dos ideais nazistas e podem resultar em práticas abusivas e discriminatórias no ambiente de trabalho. Empresas com influências nazistas podem adotar políticas de contratação e promoção enviesadas, favorecendo indivíduos alinhados aos padrões discriminatórios estabelecidos pelos movimentos extremistas. Isso perpetua a exclusão de minorias, prejudicando a diversidade e a igualdade de oportunidades.

A manipulação ideológica também é uma estratégia comum em gestões empresariais permeadas por ideais nazistas. Discursos de ódio, grupos discriminatórios e estímulo à intolerância são utilizados para fomentar um ambiente hostil e tóxico dentro das organizações.

De forma bem delineada, a cultura organizacional privilegia a presença de gestores com simpatia ou afinidades nazistas, permitindo a manifestação de comportamentos discriminatórios e autoritários. Isso cria um clima de desrespeito e opressão, prejudicando o bem-estar dos colaboradores. Tais ações, além de afetar a saúde mental dos servidores/funcionários, a discriminação e o autoritarismo prejudicam a colaboração, a criatividade e a produtividade.

É crucial que a sociedade esteja atenta a essas questões e engaje-se na promoção da conscientização e do combate a qualquer forma de ideologia discriminatória nas gestões empresariais. É necessário programar políticas de diversidade, inclusão e respeito, além de encorajar denúncias de comportamentos inadequados para garantir um ambiente de trabalho saudável e livre de preconceitos.

Embora os ideais nazistas tenham sido oficialmente derrotados, sua influência persiste em movimentos extremistas e traços psicóticos encontrados em algumas gestões empresariais. Reconhecer e combater essas ações são fundamentais para garantir um ambiente de trabalho inclusivo, respeitoso e livre de discriminação. A promoção da conscientização e a implementação de políticas adequadas são passos necessários para mitigar os efeitos prejudiciais dessas ideologias e construir um futuro mais igualitário e justo.

 

 

Manoel Serafim

Filósofo

Especialista em Ciências política

Membro da Academia de Letras Capistrano de Abreu

domingo, 18 de junho de 2023

A Filosofia do Sistema Penitenciário: entre o Panoptismo e as Críticas contemporâneas



Manoel Serafim

Filósofo e Especialista em Ciências Políticas


O sistema penitenciário é um tema complexo que reflete diferentes abordagens teóricas e políticas, envolvendo aspectos históricos, filosóficos e sociais. Este artigo discute a visão panóptica de Jeremy Bentham e a crítica de Michel Foucault ao sistema de punição e vigilância, destacando sua relevância no contexto do Brasil contemporâneo.


O Panoptismo de Jeremy Bentham e a Filosofia Iluminista


Jeremy Bentham, filósofo iluminista inglês do século XVIII, concebeu o conceito de panóptico como uma solução arquitetônica e social para o controle carcerário. O panóptico é projetado para permitir a vigilância constante dos detentos por meio de uma torre central, de onde os guardas podem observar sem serem vistos. Essa estrutura cria um estado de vigilância permanente, no qual os detentos, sem saberem quando estão sendo monitorados, internalizam as normas sociais, o que visa inibir comportamentos indesejados e promover a disciplina.


No contexto iluminista, a punição deveria ser proporcional ao delito, fundamentada na reparação do dano e na dissuasão de futuros crimes. Essa perspectiva de justiça retributiva, ainda presente no sistema penal moderno, combina-se com o utilitarismo de Bentham, que busca maximizar o bem-estar coletivo e minimizar o sofrimento. No campo penal, o utilitarismo justifica a punição como meio de proteger a sociedade, prevenir crimes e promover a utilidade social.


Foucault e a Crítica ao Sistema Disciplinar


No livro Vigiar e Punir (1975), Michel Foucault analisa a história da punição e a evolução dos mecanismos de controle social, destacando a transição de métodos físicos de tortura para sistemas baseados na disciplina e vigilância. Inspirado pelo conceito de Bentham, Foucault introduz a noção de "sociedade disciplinar", onde instituições como prisões, escolas e hospitais desempenham um papel central na formação de sujeitos obedientes.


Foucault argumenta que o sistema penitenciário não se limita à reabilitação, mas perpetua relações desiguais de poder. Ele critica a prisão como instrumento de controle social e sugere alternativas ao encarceramento, como políticas de prevenção e reabilitação que promovam a reintegração social.


O Sistema Penitenciário Brasileiro: Entre a Teoria e a Realidade


No Brasil, o sistema penitenciário reflete uma combinação das filosofias iluminista e utilitarista, mas enfrenta desafios estruturais que comprometem sua eficácia. Desde a criação da Casa de Correção, em 1834, o país adota princípios inspirados no modelo panóptico, com resultados insatisfatórios. O sistema é marcado por superlotação, violência, e condições precárias, o que o torna incapaz de ressocializar os detentos.


Além disso, o crescimento acelerado da população carcerária brasileira – o maior do mundo – evidencia a falência de políticas públicas focadas nos efeitos, e não nas causas do crime, como desigualdade social, falta de oportunidades e ausência de programas efetivos de reabilitação.


Conclusão


A perpetuação do modelo penitenciário vigente demonstra que o problema do crime no Brasil é antes de tudo político, e não apenas criminal. A solução exige um redirecionamento das políticas públicas para atacar as causas estruturais da violência e implementar estratégias que promovam prevenção, reabilitação e reintegração social.


Até quando o Brasil continuará apostando em um sistema que não apenas falha em resolver o problema, mas também alimenta o ciclo de desigualdade e violência? A resposta está em reconhecer que o debate sobre o sistema penitenciário não é meramente técnico, mas profundamente político e social.

sexta-feira, 16 de junho de 2023

Brasil: uma democracia em frangalhos



 Na Grécia Antiga, o governo democrático surgiu como uma forma de lidar com os conflitos sociais, estabelecendo tribunais e instituições públicas para tomar decisões. Isso separou o poder político das autoridades tradicionais, como o chefe de família, chefe militar e chefe religioso. Aristóteles observou a divisão social entre ricos e pobres e defendeu a justiça distributiva e participativa como elementos essenciais de uma sociedade justa.

No contexto atual, as sociedades modernas apresentam desigualdades semelhantes às observadas por Aristóteles. O Brasil, em particular, é um país historicamente desigual, com uma elite insensível aos problemas sociais. A concentração de poder político e econômico nas mãos de uma minoria conservadora é apontada como um entrave ao desenvolvimento nacional. Para reduzir essa desigualdade, é necessário um pacto social entre a elite política e econômica, a fim de superar visões coloniais e reprodução de valores ideológicos que perpetuam o poder nas mãos de poucos.

A participação política é essencial para o desenvolvimento econômico e social, porém, nas sociedades periféricas como o Brasil, o controle dos grandes capitais dificulta essa participação. É defendido que a sociedade busque representantes comprometidos em diminuir a desigualdade social e econômica, rompendo com o establishment político e econômico. Um Estado Progressista e Social de Direito é proposto como uma forma de assegurar o bem-estar e um futuro melhor para os cidadãos, promovendo o Estado providência e previdência.


Manoel Serafim

Filósofo

Especialista em Ciências Políticas

quarta-feira, 7 de junho de 2023

O que é, e por que precisamos saber...


A Ciência Política busca compreender e analisar as dinâmicas do poder, do governo e da tomada de decisões em sociedades humanas. Por toda a história, autores clássicos, medievais, modernos e contemporâneos têm contribuído para a formação e o desenvolvimento dessa área de estudo. Neste texto, exploraremos a ideologia desses principais autores em cada período.

No período clássico, destacam-se filósofos como Platão e Aristóteles. Platão, em sua obra "A República", defendia a ideia de um Estado ideal, no qual o governante seria um filósofo-rei, capaz de conduzir a sociedade em direção ao bem comum. Aristóteles, por sua vez, enfatizava a importância do Estado como uma comunidade política que visava o bem-estar dos cidadãos. Para ele, a virtude política era essencial para a boa governança. Na Idade Média, um importante autor é Santo Tomás de Aquino, cuja obra "A Suma Teológica" abordava a relação entre a fé e a razão. Aquino defendia a ideia de que o poder político deveria estar submetido à moralidade e à lei natural, e que o governante tinha a responsabilidade de promover o bem comum e proteger a justiça. No período moderno, o filósofo inglês Thomas Hobbes se destacou com sua obra "Leviatã". Hobbes acreditava que o ser humano era essencialmente egoísta e que o Estado deveria ser forte e centralizado, para evitar o caos e a guerra de todos contra todos. Ele defendia a soberania absoluta do governante como forma de garantir a ordem social.

Já no contexto contemporâneo, temos pensadores como John Locke e Karl Marx. Locke, em sua obra "Segundo Tratado sobre o Governo Civil", defendia a ideia de que o poder político deveria ser limitado e que os direitos naturais dos indivíduos, como vida, liberdade e propriedade, deveriam ser protegidos pelo Estado. Ele também enfatizava a importância do consentimento dos governados. Por sua vez, Marx, em sua obra "O Manifesto Comunista", analisava a sociedade a partir da luta de classes entre a burguesia e o proletariado. Ele acreditava que a política era uma expressão das relações de poder econômico e que a transformação social só seria alcançada com a superação do sistema capitalista.

Em resumo, a Ciência Política se baseia nas contribuições de diversos autores ao longo da história. Desde os clássicos, que buscavam o bem comum e a virtude política, passando pelos medievais, que relacionavam política e moralidade, até os modernos e contemporâneos, que exploraram questões como o contrato social e a luta de classes. O estudo dessas ideologias é fundamental para compreendermos as diferentes perspectivas sobre o poder e o governo, e para refletirmos sobre os desafios e possibilidades da política em nossa sociedade atual.


Manoel Serafim

Especialista em Ciências Políticas

Filósofo




sábado, 27 de maio de 2023

Bolsonaro e Collor: duas faces da política da crise

1 Contexto político da campanha 

Em 1989, o Brasil viveu um ano de grande esperança política com a abertura efetiva do processo democrático. Acontecia naquele momento a primeira eleição direta desde 1960, com eleição de Jânio Quadros, e após um período de 22 anos de ditadura civil-militar no país. Era tão grande a efervescência política a qual vivia o Brasil que, para concorrer à presidência, havia vinte e seis candidatos na disputa. Segundo as pesquisas, dois candidatos disputam a preferência do eleitorado: Fernando Collor de Melos e Luiz Inácio Lula da Silva. O primeiro lugar, segundo o Datafolha, estava o liberal Fernando Collor, apresentava-se como arauto da moral e único candidato capacitado para destravar a economia, controlar a inflação e alinhar o país à modernidade da administração pública. Apresentava-se - como ele mesmo se autodenominava -, o Caçador de Marajás - quando era governador de Alagoas - , e representante da nova forma de fazer política. 
Interessante notar que, não obstante o candidato se apresentar como novo na política, gestor e não político, sua família era formada de figuras tradicionais da política brasileira: seu avô foi assessor de Vargas e deputado federal; seu pai governador, senador, e o próprio Collor tinha sido deputado federal, governador de Alagoas e prefeito de Maceió, sendo portanto, nomeado ainda da Ditadura. Sua família liderava grupos empresariais, os quais detinham o oligopólio da imprensa alagoana. 
Lula da Silva, retirante nordestino em 1956, era então deputado federal por São Paulo, político ligado a movimentos sociais e sindicalista dos funcionários da metalúrgica do ABC paulista. Político conhecido por lutar contra a ditadura militar, líder partidário e fundador do Partido dos Trabalhadores (PT) no ano de 1980. Defendia que o governo brasileiro fosse gestado por ideais socialistas, no qual o Estado dividisse melhor as riquezas do país entre as classes trabalhadoras e buscasse, com isso, justiça social a milhões de brasileiros das diversas camadas sociais. 

 1.1 Collor verus Bolsonaro 

Embora diste de quase trinta anos de diferença, suas campanhas conservam mais semelhança do certamente muita gente pensa. Pois bem: os dois se apresentavam como únicos a congregar esforços para mudar o país para melhor e se apresentaram como antissistema e combatentes ferrenhos da corrupção. Da mesma forma, seriam conservadores na religião, na família tradicional e anticomunistas; defendiam o modelo neoliberal como sendo o melhor a ser seguido, o encurtamento do Estado e foco no capital estrangeiro. Eram Patriotas os quais buscavam nos símbolos da bandeira o ideal de conservador-cidadão. Collor usa o verde-amarelo para pintar o rosto simbolizando o patriotismo; Bolsonaro, igualmente, o fez com as cores da bandeira. Não obstante, sendo pessoas já conhecidas no cenário político nacional, apresentavam-se como antisistema e outsiders. Como já citado, Collor era pessoa com experiência no parlamento nacional, no executivo estadual e municipal, e Bolsonaro foi deputado federal pelo Rio de Janeiro há mais de 28 anos. 
Na disputa com o mesmo adversário Lula, apregoavam que tal candidato era comunista e sua política antiquada levaria o país à bancarrota. Nos dois casos, diziam que Lula instalaria o comunismo no Brasil, apropriar-se-ia das propriedades privadas, bem como sequestro da poupança de brasileiros. 
É fato que, tanto Collor em 1989, e Bolsonaro em 2018, caíram no gosto da elite. Rapidamente foram eleitos como candidatos preferidos dela e de grandes empresários de diversos setores da economia. Da mesma forma, foram os dois candidatos a angariar apoio dos grandes veículos de comunicação do país, principalmente as emissoras de televisão, a exemplo da Globo, a qual deu apoio direto à Collor e indireto à Bolsonaro. No campo do discurso político, é muito fácil dizer que Bolsonaro é uma cópia ruim de Collor. O primeiro, fala com muita dificuldade em articular ideias e muito limitado no vocabulário. Collor, economista por formação e, por atividade em grupo de imprensa, dominava muito melhor o discurso político e conseguia se sair facilmente em discursos mais improvisados e ou quando afrontado discursivamente. 
Por outro lado, o que temos de novo na campanha de Bolsonaro é a Internet, que de certa forma, era suprido à época de Collor pela televisão como veículo de massa. Dentro deste mesmo contexto de internet, a web.3 traz consigo uma grande possibilidade de interatividade proporcionado pelas redes sociais: whatsapp, instagram, youtube, twitter, facebook etc. É justamente neste meio que Bolsonaro mais se destaca de Collor e de seu adversário Lula em 2018. Nestes espaços, as chamadas fake news - que sempre estiveram presentes no campo político - , transformam-se em ferramenta política de ataques ao adversário e criam situação paralela à própria realidade factível. Antes, porém, o que mais aproximava ambos os candidatos, inexoravelmente, era o projeto político de satisfazer os desejos da elite econômica. 
Via de regra, é a elite que escolhe os candidatos.Também é importante salientar que tais crises quase sempre são geradas pela própria elite, com suas decisões políticas, e sendo ela também, "responsável" indicar pessoas para resolvê-las. Neste sentido, o político responsável por angariar competência redentoristas, seja em carisma personalístico, seja religioso, ou atributos políticos, são os indicados. Max Weber em seu livro sobre Ciência e Política, diz que tanto as massas quanto a pequena elite têm os olhos voltados para os homens importantes cujos nomes lhe são familiares. Por outro lado, desconfiam da ambição de um desconhecido, ao qual só lhe dá confiança depois de haver triunfado definitivamente. Isso é recorrente em toda a história política da humanidade, independente do regime que a governe. Aconteceu no período napoleônico quando da crise da França, o qual, em novembro de 1799, ocorreu o Golpe de 18 de Brumário. " e, depois disso, Napoleão, começou a promover reformas na economia, no sistema de justiça, na educação, no governo, entre outras áreas de grande importância para o país.". Nos mesmos contextos da crise, na Itália fascista com Mussolini; na Alemanha com Hitler e tantos outros. 
 
2.Conclusão 

Após exposição dos argumentos listados, inferimos que em momentos de crises é bem comum aparecer políticos advogando competência para resolver todos os problemas enfrentados em períodos de crise política. Normalmente, criam casos de sociais no sentido de estabelecer um diálogo, uma saída para os momentos de agitação e convulsão social. No caso de Collor, o político ficou conhecido e estabeleceu diálogo forte com a questão do Caçador de Marajás, ou seja, o homem responsável por equilibrar as contas públicas e realocar os recursos aos mais pobres. Bolsonaro, como homem cujo maior princípio era a honestidade, a pátria, a família tradicional e a religião, elementos base e diametralmente oposto ao sentimento antipetista criado pela imprensa e jurisdicionado na figura da Operação Lava-jato. O Salvador da Pátria, a despeito do interesse da classe de trabalhadores, surge com trato discursivo no sentido de falar às massas, mas com objetivo de interesse na classe de poder econômico. 
Há muito tempo, as pesquisas políticas mostram que o fator econômico numa eleição sempre tem maior peso na hora de decidir o voto. Desta forma, tais candidatos são criteriosos na hora de programar os discursos políticos. Weber no mesmo livro supracitado, publicado há mais cem anos, relata com muita temporaneidade que o povo elege o fator econômico em primeiro lugar, seguido do conservadorismo (família, religião, tradição) e por fim, opiniões tradicionais recebidas dos familiares. 
Críticas à parte, é fato que os quatorze anos de governo de esquerda no Brasil foi marcado por grande desenvolvimento entre as classes tradicionalmente desprestigiadas, pelo grande investimento educacional, na construção civil, no funcionalismo público que viveu seu apogeu, investimento em grande escala na linha de crédito, na aquisição de bens duráveis, na ampliação de direitos sociais etc. Isso teve um efeito diretamente negativo nos planos da elite, no status quo, no establishment. Portanto, a ordem ideológica, econômica, política e legal que constitui a sociedade dominante, tinha que voltar ao plano do conservadorismo social. 
Para fazer levante a este processo estatisticamente improvável, foi necessário um impeachment, cujo fato jurídico era uma espécie de empréstimo bancário nas contas da União que, depois, a própria CGU negou haver irregularidades na aprovação das contas da presidência da República. Ato contínuo, foi ainda necessária a Operação Lava-jato, no sentido de "banir a corrupção nos governos petistas", da qual resultou na prisão por quase dois anos do então ex-presidente Lula, que depois o STF anulou por diversos vícios nos processos e parcialidade do juiz Sérgio Moro. 
Nos casos acima, a subsunção do Direito, isto é, o que seria a aplicabilidade do direito, das normas em caso concreto, deixa claro qual fator valorativo as instituições do poder judiciário têm, quando das decisões judiciais entre as classes de poder. Segundo o professor de Filosofia do Direito, Alysson Mascaro, nada do direito é olhar a norma tal, e portanto, aplicar a subsunção àquela norma. O Direito não funciona assim, pois quem pensa assim estaria no mundo da fantasia. A decisão do jurista está sempre ligada a fatores políticos, da dinâmica das relações sociais, das dominações e pressões ideológicas.Todo poder é poder político, inclusive o poder judiciário. 

Por Manoel Seraim 
Filósofo 
Cientista político

quinta-feira, 20 de abril de 2023

O capital pós-moderno

O mundo tá meio louco, Tudo muito apressado, A vida muda tão rápida, Que de multicobranças e tarefas, O homem ficou meio abobado; De tanta velocidade, é certo que causado, Tanta loucura que vemos, E até em nossas escolas esses loucos têm chegado; Isso mesmo começou com a tal revolução, Da ciência, dos ingleses, Que vem afetando o cérebro, o corpo e o coração, É justamente isso, no capital de hoje, que tudo isso é traduzido em uma autoexplosão. Sendo essas loucuras : (ansiedade, TDAH, intolerância e individualismo extremo), um resumo de uma doença da mente que, como bem diz o filósofo, é a doença neuronal.

segunda-feira, 17 de abril de 2023

Sindicato e a panela de pressão: uma analogia perfeita

Sindicato e a panela de pressão: uma analogia perfeita A criação de sindicato no Brasil está diretamente ligada com ampliação dos partidos políticos e a ampliação da vida política brasileira, principalmente com a criação dos partidos de massa, oriundos das camadas de trabalhadores. Formalmente, foram instituídos no Brasil na era Vargas, com a Lei sindical de 1931 (Decreto 19.770) e, com os vários processos de ruptura democrática, houve a proibição de funcionamento dos sindicatos e partidos de massa, com retorno na década 1980, durante a redemocratização. 
Como entidade política, são um espaço de disputas de interesses materiais e políticos, portanto, atores importantes no cenário econômico e político. Para Antunes (2002), o sindicato é consequência dos conflitos de classes, a partir do esforço da classe operária contra a dominação do capital e a exploração do proletariado. Eles fazem parte da Sociedade Civil Organizada e exercem funções de pressão política para obter seus objetivos. Resumidamente, o Estado se organiza em três segmentos sociais: o primeiro setor (Estado), cujo objetivo maior é o bem comum; o segundo setor (Empresas), cujo objetivo maior é o lucro, e o terceiro setor, (SCO), isto é, ONG, comunidades epistêmicas, sociedades sem fins lucrativos, entidades de classes, sindicatos. A SCO não faz parte da organização interna do Estado, sendo juntamente um contraponto entre este, e as entidades organizadas e os cidadãos. 
Compreendida a organização humana como arena de poder, o Interesse é algo precedente em qualquer ação. Sempre, de alguma forma, estamos pensando em adquirir vantagem: a dissuadir alguém de algo, ou buscar algum benefício. Aristóteles dizia que o homem é um animal político porque ele tem a logos, a palavra, e transfere isso em interesse, numa dialógica-política. 
Os sindicados representam grupos de pessoas que atuam em direção a um objetivo, compartilhando interesse comum. Para alcançar esses objetivos, conforme Pasquino (2010, p. 115), há seis recursos que interferem nas probabilidades de sucesso de uma organização de interesse: número de participantes, recurso financeiro disponível, representatividade, qualidade e amplitude dos conhecimentos utilizáveis, colocação estratégica no processo produtivo e nas atividades sociais essenciais ao funcionamento do sistema político e facilidade de intervenção. Às vezes, nem sempre a força sindical é suficiente para atingir os objetivos, sendo, portanto, necessário grupo de pressão externa. Esses grupos de pressão (partidos políticos, ONG, imprensa, o judiciário, comunidades epistêmicas etc.) atuam, em conjunto com os grupos de interesse (sindicato), na mobilização, na demonstração, na solicitação e intermediação, com foco na conquista dos objetivos. 
Aqui, podemos fazer a analogia entre a panela de pressão e o sindicato. A panela de pressão tem nos seus equipamentos o equilíbrio para melhor rapidez no cozimento dos alimentos, de forma que a válvula controla a temperatura ideal para o bom funcionamento. Caso não haja a pressão necessária, não há o cozimento rápido; caso haja pressão demais, a panela pode explodir ou algo pode mudar os objetivos. Assim, para atingir objetivos, sindicatos devem planejar ações e metas, investir na formação política, atingir a pressão adequada e focar no interesse da coletividade.

sábado, 15 de abril de 2023

Política e internet

A política brasileira sempre foi muito ruim, por conta principalmente do eleitorado que não tem formação política para exercer a cidadania. Neste período, ou seja, antes da grande ascensão das mídias sociais, o fazer político seguia uma linha mais homogênea, em que os partidos tinham a principal função de organizar internamente seus candidatos e definir as pautas da campanha. Com o avanço da internet, criou-se os outsiders, figuras pouco conhecidas e ou inexpressivas que chegam rapidamente ao poder. Em muitos casos, são eleitos através de lacração na internet e de discursos vazios, e frases de efeito. Isso tem trazido maior empobrecimento do debate político, do parlamento brasileiro, tornando a política ainda pior, pois são políticos eleitos pelo fenômeno da internet, sem vivência na vida pública e sem encarar os problemas sociais do país com a profundidade necessária. São figuras criadas através de notícias falsas, as quais constroem uma realidade falseada da verdade, bem como criam um espaço de intolerância na internet e na vida da sociedade. O que já era péssimo, ficou insuportável. A internet, se por um lado, pode trazer boas práticas na vida política de uma nação, por outro, quando usada de maneira inadequada, pode piorar e muito a vida das pessoas. Por ser uma mídia à qual todos têm acesso e podem fazer o que quiser, ela se torna ferramenta perigosa à própria condição humana, seja na propagação de violência física, intolerância religiosa, risco à democracia....pois num só perfil, consegue reunir muito de pensamento totalitário, supremacista, extremista-religiosos etc.

segunda-feira, 27 de março de 2023

A visão ética da Idade Média e Renascimento, em Santo Agostinho e Pico Della Mirandola

A consciência moral proposta pelo filósofo cristão Santo Agostinho - Agostinho de Hipona (354-430 d.C.) - está ligado diretamente à separação do homem pecador de Deus supremo, e essa conexão se fará através da graça divina. Santo Agostinho propõe para sua teoria filosófica uma releitura de Platão, e cria o conceito de livre-arbítrio com três conceitos-chave. O autor estabelece: o Mal físico, por meio de doenças, pragas; o Mal metafísico, cometido por limitações da condição humana, e o Mal moral, fruto do mal de nossas escolhas erradas.

Desta forma, o homem tem consciência sobre seus atos e escolhas, porém essas escolhas devem aproximar o homem de Deus. Portanto, para exercer o bem, o homem tem duas condições: a graças de Deus e o livre-arbítrio. Sem graça não há o bem; sem o livre-arbítrio não seria possível à escolha do bem. Assim, Deus dá à graça e a possibilidade de o homem ser bom, através de ações pautadas na escolha da fé.

Por outro lado, o pensamento filosófico do Renascimento tem estabelecido outros parâmetros éticos e morais do ser humano.  O homem é definido como meio de equilíbrio de todas as coisas. Com essa visão, para o brilhante jovem renascentista Pico Della Mirandola (1463-1494), o homem, na criação divina e sua queda pelo pecado, tem adquirido dignidade através do exercício do livre-arbítrio. Portanto, para esse pensador, deveria ser estabelecida uma nova ordem na fé cristã, a qual deveria dar maior expoente na capacidade intelectualista do homem.  Neste sentido e sem negar a fé, existe maior diferença entre a Ética da Idade Média, na qual o ser ético - este totalmente alinhado ao ser divino, aos dogmas, - com o que é colocado na visão renascentista.  Na visão de Pico Della Mirandola, a liberdade do homem, com o poder de escolha, estabeleceu-se maior independência do homem ao poder religioso.

O tema proposto neste ensaio se encontra diretamente ligado aos preceitos filosóficos e morais da Idade Média (V e XV) e ao período do Renascimento cultural, século XIV e o fim do século XVI. Abordaremos duas charges THAVES, Bob. Frank & Ernest, e Calvin e Haroldo: e foi assim que tudo começou, em que são discutidos: a consciência moral e autonomia para deliberação. Na primeira tirinha em que um interlocutor perguntou ao outro se este segue sua consciência moral, e obtendo como resposta: Não...meu senso moral tem um seletor de chamadas...podemos dizer, dentre outras possibilidades, que a voz da consciência cede lugar às variadas possibilidades de escolhas e liberdades do homem renascentista.

Na segunda tirinha, em que há questionamentos sobre a crença no destino e na predestinação da vida humana, há também uma satirização sobre a condição humana colocar por Deus. Isto é, na visão cristão-medieval o homem teve seu destino já determinado por Deus e só a graças deve mudar isso. Dessa maneira, o cristianismo medieval pressupõe que o erro é parte da natureza humana em decorrência do caráter imperfeito da própria vontade humana. E para resolver esse problema, a Filosofia Medieval recorreu à fé como resposta central: Deus, em sua misericórdia, prometeu dar a redenção aos homens por meio de Cristo, para salvá-los de sua condição maculada.


Por fim, tais reflexões sobre Ética e Moral no período Medieval e Renascimento, colocam-se como ponto de inflexão de um novo momento de ordem e de pensamento filosófico, com as visões focadas no homem neste período de transição. Esse novo olhar deve seguir de pano de fundo para as mudanças mais profundas com o advento do Iluminismo.


Manoel Serafim
Filósofo e escritor
Membro da Academia de Letras
Capistrano de Abreu

 


terça-feira, 21 de março de 2023

Direitos Humanos para quê?

 

Afinal, Direitos Humanos para quê?  Qual a relação desse Direito com o Estado, Capitalismo, com a Educação, Ética? No Brasil, falar em Direitos Humanos é intempestivamente falar em Direitos para pessoas que cometeram crimes, é falar de algo totalmente pejorativo. Abordaremos o assunto com amparo em filósofos e com a ciência política, cujo lócus terá uma dimensão histórica e, principalmente, filosófica. O conceito de DH na perspectiva filosófica está alicerçado em princípios os quais definem a própria condição humana. Para Kant (1980), o homem deve ser considerado como fim em si mesmo. O homem é um ser cuja existência constitui um valor absoluto, ou seja, nada do que existe no mundo lhe é superior ou equivalente. A dignidade é um valor incondicional (ela deve existir independentemente de qualquer coisa), incomensurável (não se pode medir ou avaliar sua extensão), insubstituível (nada pode ocupar seu lugar de importância na nossa vida), e não admite equivalente (ela está acima de qualquer outro princípio ou ideia).

De um ponto formal, o conceito de DH está ancorado na CF de 1988, em seu Artigo 5º, caput, que garante a todos os brasileiros a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade. No Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH), e no Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos (PNEDH), em 2006, que prevê uma série de políticas públicas no âmbito educacional.  Desta forma, o CNDH e PNEDH são instrumentos sociais para enfrentamento por busca de Direitos em termo lato sensu, no sentido de promover a dignidade da pessoa humana. 

Eticamente, os direitos humanos devem ser encarados como fundamento da responsabilidade a priori, sendo reconhecidos como DH inseparáveis da inviolabilidade da dignidade, indivisibilidade e universal.  Assim, viola-se quando, por exemplo, deixa-se alguém com fome, sem educação, quando se faz torturas, com prisões ilegais etc. Outro fator ético muito importante na relação do DH é indivisibilidade dos direitos e a universalidade, pois não adianta o ser humano ter direito à educação e não ter direito à comida; não adianta ter direito a votar e não ter direito de ir à escola; não adianta ter direito a professar sua fé e ser torturado no outro dia. 

Através do racionalismo, a vida humana foi totalmente transformada por revoluções, de tal sorte que as relações humanas também foram abaladas. Hodiernamente, conforme sociólogo polonês Zygmunt Bauman, (1925-2017), vivemos a Sociedade Líquida, sociedade dominada pelas descrenças absolutas em valores que outrora eram tidos como inquestionáveis e incomensuráveis. Tal posicionamento tem trazido maior problema para sociedades, porquanto a própria descrença absoluta no homem, na organização política e com o poder, de fato abala ainda mais a persecução de efetivar Direitos.

Dentro de uma corrente mais otimista na relação de poder e da política, o sociólogo estadunidense Talcott Parsons (1902-1979) defendia que, quanto mais educada uma sociedade for, mais ela terá condições de se autorregular e evoluir em melhorias e condições sociais. Acreditamos ser a educação o maior problema de países mais pobres, o que gera todos os outros. A educação, em sentido geral e continuada, leva a sociedade para os debates políticos e gera responsabilidade política nos cidadãos. 

No caso do Brasil, a política pública brasileira deve estar alinhada, assim como foram as maiores potência do mundo, ao Estado Social de Direito, cujos valores estariam no Estado providência, assegurando o bem-estar da sociedade e em desenvolver laços para assegurar um bom futuro aos cidadãos e garantir Direitos Humanos.

Por fim, e por considerar o problema do nosso país ser, antes de quaisquer outro, uma decisão política, ou seja, de políticas públicas, o Brasil deve decidir para qual lado deve caminhar, seja numa visão mais conservadora ou menos conservadora em sentido de governança do Estado e, portanto, na garantia de efetivar Direitos Humanos aos seus cidadãos.


Por Manoel Serafim

Filósofo e escritor

 

quinta-feira, 2 de março de 2023

O psicopata e sua interface com o poder


O psicopata e sua interface com o poder

Quando se fala em psicopatas normalmente se associa a criminosos terríveis cujas vítimas são mortas de maneira brutal e sem explicação aparente. São geralmente associados a crimes sexuais e contra criança e adolescente. São imagens romantizadas trazidas pelo cinema, pois na realidade, as ações dos indivíduos com condutopatias são mais recorrentes nas atividades de vida social do que imaginamos.

Segundo o professor, escritor e psiquiatra forense Guido Palomba, a psicopatia e seus termos comuns (psicopata, sociopata, e mais como ele mesmo gosta de denominar - condutopata) são pessoas cuja conduta está alheia a valores éticos e morais. Os psicopatas nascem, crescem, desenvolvem-se e morrem assim, sendo incurável e orgânica. Os condutopatas são limítrofes entre o doente mental e a pessoa de conduta normal. Essa área de fronteira, segundo Palomba, é porque, diferente do doente mental, que age com fugir da realidade, o condutopata age com consciência para chegar a seus objetivos.

Outras características dos psicopatas são a ausência de arrependimento, sentir-se superior, normatizador de tudo, criar máscaras sociais, manipuladores, sem piedade, compaixão e altruísmo. São indivíduos híbridos - como os morcegos que têm asas, voam e não são pássaros; têm pelos e não são poríferos -, e são capazes de enganar a muitos.

Nas cadeias sociais, eles são ávidos pelo poder e usam estratégias para pavimentar sua chegada lá. A cadeia de comando é fascinante para eles, são terrivelmente nocivos e aonde chegam causam grandes estragos sociais. Como estratégia de poder, Hitler fundou o nazismo; Mussolini, o fascismo etc. O exemplo da Segunda Guerra, na qual Hitler chegou ao poder e matou mais 58 milhões de pessoas no mundo, é clássico para ilustrar a ação de uma mente psicopata. Eles sempre buscam estratégias para chegar ao poder, e quando chegam, o ônus quem paga é o subordinado, uma vez que, no exercício extremo de sua personificação, querem a perpetuação no poder.

Aqui fazemos um parêntese para dizer que, quando em ação, tanto o sociopata como o Poder tem via de mão dupla, isto é, cada um ganha um pouco na ação. É bem verdade que o Poder, quando lhe convém, adora o psicopata. Vejamos o que fez Hitler!!! Eles são bem-vindos quando há grandes convulsões sociais, políticas e, principalmente, econômica. A fonte principal do Poder é mandar a outrem a execução da ordem, ação, muitas vezes ordens duras e sem compaixão. É justamente aqui que ele pode contar com a figura do psicopata, justamente aquele que vai agir a rigor, sem medo de ser feliz e sem se preocupar com valores éticos e morais. Nesse jogo de peso e contrapeso, ora a Estado/Corporação ganha com ações duras sobre seus dominados, ora o psicopata ganha fazendo seus desejos mais intimistas. É possível que nas escolhas de chefias e lideranças de instituições/empresas, determinadas características sejam levadas em conta para escolher lideranças.

Ao final desta pequena exposição, será possível identificar facilmente um psicopata ou condutopata … A resposta, segundo a psiquiatria, é não! Para identificar essas figuras humanas tóxicas é preciso estudar seu histórico de vida e suas ações. A população mundial tem a média de 2% de psicopata, portanto, cuidado, você pode estar ao lado de um psicopata!!!

 

Por Manoel Serafim

Filósofo,  escritor, 

Membro da Academia de Letras 

Capistrano de Abreu 

Especialista em ciência política 


Romper a Bolha Informacional: por uma Consciência Crítica no regime da Informação

Romper a Bolha Informacional: por uma Consciência Crítica no regime da Informação Por Manoel Serafim – Filósofo e Especialista em Ciências P...